NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Prólogo





Homem branco veio, e com tacape de pau fino que cospe fogo, e cipó teso de ponta afiada, desafiou as leis de Iratu. Pegou nossas cunhãs e cunhatãs, deu sua água remosa, invadindo nossas terras e contaminando nossas mulheres.

Homem branco expulsou parte de nossos guerreiros e raptou nossas mulheres. Falei para homem branco que estas terras são nossas, dádiva de Iratu, mas homem branco não quis saber. Pegou pau fino, furou olho meu, bateu em mim, matou minhas crianças, pegou minha mulher e a levou para longe do rio. Nunca mais eu vi mulher minha.

Não sei por que homem branco tem tanta maldade. Nós índios, guerreiros da floresta, queremos ser amigos. Eu vi Mário crescer com a sua pela da cor de Araci quando brilha de manhã. No momento em que a grande suçuarana ia dar o bote para pegar Mário, avisei Itanhaê que homem branco corria perigo. Depois de salvo pelo nosso grande feiticeiro, Mário se tornou um dos nossos. Mário homem branco, mas homem bom e sem maldades, diferente dos outros homens brancos. Todo homem branco deveria ser como Mário.

Mas a paz vai voltar à grande nação tucuju. É vontade dos povos da floresta. É vontade dos espíritos de nossos antepassados. É vontade de Iratu, a encarnação de Tupã na terra. Índio acredita. Índio espera isto. Índio confia.



(Ibanatu Tucuju, chefe indígena,
dezembro de 1636, na contagem do homem branco)

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