NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Prefácio



Bellarmino Paraense de Barros

Tive oportunidade de ler a primeira edição da obra do escritor e jornalista Edgar Rodrigues: NIRANAÊ, na qual este jovem talentoso dá um passeio pelo maravilhoso mundo colonial dos bravos índios das terras do setentrião brasileiro. O romance de Edgar traz o perfume delicioso emanado das entranhas misteriosas de nossas florestas, onde os rios e paranás são uma presença permanente, ávidos para receber o beijo cálido de suas espécies ciliares em cuja sombra a boiúna, na imaginação dos ribeirinhos, assusta o ambiente.

Já conheço o escritor através de seus artigos semanais, publicados nos jornais de Macapá. O historiador tem, em seu acervo, cerca de 40 mil informações indexadas sobre o Amapá, além do acervo fotográfico constituído de quase duas mil fotos, retratando a cidade antiga de Macapá desde 1907, quando as ruas eram iluminadas por candeeiros.

Escrever, penso eu, é permitir a manifestação da alma em seus lampejos de paixão ou de cumplicidade com o mundo material que ele vislumbra, que faria de nós, mortais, meros mensageiros ou, então, é o modo de dialogar com os elementos da poesia.

Nos tempos idos trilhavam pelos caminhos maravilhosos das letras do nosso Amapá, almas como Álvaro da Cunha, Ivo Torres, Waldemiro Gomes e Alcy Araújo, entre outros. Muitas construções literárias foram por eles concebidas que embalaram os devaneios dos pobres morais, venturosos pelo desfrute das pérolas que eram derramadas em revistas por eles e editadas em Macapá, como Latitude Zero e Revista Rumo.

Outros obreiros que carregaram para o deleite das nossas mentes foram Arthur Nery Marinho, cujos versos tímidos ocupavam uma estreita superfície, conde pontuavam os pioneiros do nosso Amapá. Luís Gonzaga Pereira de Souza produziu uma obra calcada em temas espíritas, onde ele buscava inspiração e sabedoria.

O Hélio Pennafort editou obras inspiradas nos fenômenos das forças do Cassiporé, e dos mistérios da pororoca. A professora Aracy Mont’alverne, sempre sintonizada com o mundo da poesia, atraia para sua mente, sonhos em forma de estrelas.

O Nilson Montoril é um talentoso historiador que foi alçado ao mundo dos amapaenses, por obra e graça do meu sempre saudoso amigo Francisco Torquato de Araújo, seu pai, e que por esse fato lhe deve uma dupla reverência.

Cordeiro Gomes, modesto vigiense que fez história nos desportos e nas letras, carece ser exaltado pela sua humildade e talento. Coaracy Barbosa, paciente e corajoso menestrel de preciosos trabalhos sobre os personagens ilustres do Amapá, impressionava pena tenacidade.

EDGAR RODRIGUES tem uma particularidade. Ele é filho de um grande amigo meu, o Raimundo Cardoso Rodrigues, mais conhecido por Badico, um grande artesão das jóias que o Amapá possuiu. Seu pai nasceu em Igarapé Açu, no Pará, onde corre o sangue nordestino, do sertão do Ceará (Uruburetama), de onde se originou seu avô Zacarias Rodrigues Teixeira. A mãe de EDGAR, Maria de Lourdes, foi uma verdadeira batalhadora, que conseguiu, junto com Badico, educar uma prole maravilhosa composta por Dinair, Edgar (o nosso historiador), Mair, Pedro, Ray, Aldemir, Suely... e o saudoso Claudemir, poeta de veia fértil que deixou este mundo prematuramente, em 1989, aos 21 anos.

Edgar teve experiência religiosa, convivendo inicialmente com os padres camilianos em Macapá (postulantado), e com os barnabitas em Belém (noviciado), ao longo de quase 10 anos, onde cursou Teologia no Seminário São Pio X (Ananindeua) e Filosofia na Universidade Federal do Pará. Após a experiência religiosa cristã, e provocado por questões de crises sentimentais, ele isola-se, a partir de 1986, num mosteiro Zen Budista, onde aprende e apreende, através de exercícios ascéticos, a arte da Meditação.

Em 1987 retorna a Macapá, e começa a reunir uma coletânea de informações sobre História do Amapá, colhidas nos arquivos do Pará, durante os anos em que esteve por lá. Em 1988 tem uma experiência de quase um mês com os índios Wajapi, no Amapari. Essas experiências, juntamente com os estudos antropológicos sobre os índios da Amazônia em geral, fizeram com que ele produzisse esta que, para mim, é sua obra-prima: Niranaê, na qual ele retrata quase um século de convivência entre os índios Tucuju e o europeu, corporificados nas personagens Niranaê e Mário Hernendez. Vale a pena ler a obra.

O intelectual é daqueles que fogem a qualquer classificação. É poeta? É cronista? É ficcionista? É historiador?. O que podemos assegurar, é que ele tem a facilidade e a maestria de pender para as várias tendências, se saindo muito bem nelas, muito embora já tenha deixado claro que este é o primeiro se seu último romance. A humildade o faz identificar-se simplesmente como jornalista. Mas ele é mais do que isso.

Bravos, mil vezes bravos a todos esses luminares das letras amapaenses. E a você, EDGAR RODRIGUES, que me entrega parte do cenário desta minha carência existencial das lindes do Amapá.
(Belarmino Paraense de Barros)

Nota: Este prefácio foi publicado no Jornal do Dia, de 20 de setembro de 1998, e não consta na primeira edição do livro, passando a figurar a partir da segunda edição.

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