NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 25

Chegou, finalmente, o grande dia. A pequena vila amanheceu colorida, contrastada a sua natureza com as caravelas em frente, que dividiam o espetáculo com o azul do mar e o azul do céu. Os trabalhadores da expedição de Van Der Linch estavam realizando uma limpeza geral na nau principal, onde seria feita a cerimônia de casamento. O velho comandante estava meio nervoso, pois se tratava do casamento de sua querida Beatriz, filha única e uma das fortes razões para ser feliz. Tinha virado e revirado a noite anterior em busca do sono, e pensado todos os prós e contras do casamento.

Perderia a filha? Não, pois ela iria com ele e seu futuro genro, cumprindo viagem até Amsterdam. Mas uma pequena feitoria seria etabelecida ali, com seis funcionários de confiança que cuidadosamente desenvolveria ali um comércio ou escambo. Beatriz estava muito nervosa. Queria logo que chegasse a hora para o encontro definitivo com seu amado. O velho comandante concordou que a cerimônia fosse realizada segundo o ritual romano, já a essas alturas combinado com o padre Luís Inácio.

E Moisés? Já estava providenciando toda a roupa do casamento. Seu avô havia desenhado um modelo de vestuário, e suas irmãs e cunhadas fizeram a roupa.

A cerimônia na Igreja não foi longa. O latim erudito e apurado do padre Inácio não conseguiu prender as atenções do cerimonial romano de práxis. Todas as atenções, ao contrário, estavam para a noiva. Van Der Linch havia guardado o vestido que a mãe da jovem usou, na cerimônia de casamento com seu pai, e serviu bem na bela menina. Beatriz estava radiante, e a felicidade da jovem foi sentida por todos. O rosto sorridente dizia tudo.

Mário também experimentava uma cerimônia diferente com seu neto, e desta vez reconhecia que Moisés teria um futuro bem brilhante e promissor. O sorriso estampado no rosto do velho guerreiro,inebriava o ambiente. Há nora do “sim”, Van Der Linch e Hernandez choraram de emoção.

Os tucuju estavam ali também, presentes. A ausência de Itanhaê se fazia sentir, mas ele e Itaraê já faziam parte das terras das caças e pescas celestiais, ao lado de Iratu. Uma lágrima no rosto de Hernandez era especialmente para sua Niranaê, que ali fazia falta. Foi ela a grande esposa, e a mãe da grande nação tucuju, a fêmea que conseguiu produzir o que estava se desenrolando naquele exato momento. Moisés também estava esvaiado em lágrimas, pelas saudades de sua querida e saudosa mãe Amália.

Recordando um pouco, o leito deve estar lembrado como Moisés apareceu no mundo, em que circunstâncias ocorreu. Quem será o pai de Moisés? Um aventureiro que passou por lá, e violentou a meiga Amália, embrenhando-se em seguida na floresta para nunca mais voltar. Seria o pai do jovem Moisés alguém da expedição de Van Der Linch? Eram tanto os que apareciam por aquelas bandas,que fica difícil saber por onde começar a investigar. Deixa para lá! Concluiu Moisés que, de repente,voltou à realidade. Agora ele estava ali junto de Beatria, a loura européia, a deusa dos cabelos dourados, que iria devolver a felicidade, pelos mares de Amsterdam, com seu novo pai,o velho Van Der Linch.

Ao contrário de Mário, que chegou àquelas paragens em outrora, Moisés parte.
Os festejos demoraram três dias. Por conta do pai da noiva, foi distribuído muito rum. Pela primeira vez os tucuju deixaram o caxiri de lado e, a contra-gosto do padre Inácio, usaram este novo tipo de bebida. Do lado holandês, os funcionários da expedição caíram nos momentos estivos do folclore batavo. Os tucuju, principalmente os curumins e cunhas, passaram a imitá-los. A integração das duas culturas, forçosamente, foi ótima naquele dia, que varou a noite.

De longe, o famoso Itaribá, em preces, sozinho, tentava uma “audiência” com Iratu, nessas palavras:

“Grande Iratu, grande e honesto guerreiro, guerreiro bom! Protege minha gente desses homens do Norte,cujos avisos sempre vieram de Itanhaê que agora está na tua presença. Mário bom, mas teimoso. Conserva, ó grande Iratu, a desconfiança entre nosso povo, com arma mais forte que o tacape, com força maior que a borduna, para que nossa civilização não chegue a sucumbir nas mãos do branco, responsável pela matança vagarosa de nossos irmãos”.

Mesmo instante, após o guerreiro terminar a prece, Jurupari desceu em forma de sucuri. Itaribá, tão absorto em sua concentração, não percebeu a presença da cobra. De um salto só, a vigorosa serpente cravou os dentes fortes no pescoço do pobre Itaribá, se enrolando por todo o seu corpo. Foram instantes de terror, pois o velho guerreiro, mesmo com todo seu músculo, foi instruído desde criança que não deveria interferir no trabalho da mensageira de Jurupari. Na crença de seus ancestrais, o sofrimento pelo qual passa qualquer guerreiro tucuju por uma serpente, já deixa limpa a alma do guerreiro.

Iratu tinha mandado a cobra para convidar Itaribá a não interromper a cena que se desenrolava na aldeia. Enrolado na sucuri, esta conseguiu arrasta-lo para o fundo do igarapé. Foram necessários muitos dias para que a parte da carcaça de Itaribá fosse vomitada pela cobra. Mas o curso do rio locomoveu os restos do índio para outrolado da margem, e em seguida a erosão cuidou de exterminar o que restava. Itaribá pagou com a própria vida, por ousar duvidar de Iratu.

Os dois líderes, reunidos com o Conselho de Guerreiros Velhos, explicaram e expunham os últimos detalhes da viagem. Mediante um acordo de cavalheiros, ficou acertada a permanência de seis marinheiros de confiança, representantes da expedição de Van Der Linch com os tucujus na formação de uma feitoria. Também ficou decidido, pelo Conselho, que esses representantes, sendo solteiros, poderiam tomar cada um uma jovem tucuju para constituírem família, mas, para isso, teriam que se submeter à cultura da nação.

Outras cláusulas do contrato: ficou certo que acompanhariam Moisés dois guerreiros fortes de confiança, que iriam de livre e espontânea vontade. O capitão batavo deixaria em Santa Luzia dos Tucujus 500 farnéis de farinha de trigo, 700 sacas de sal e mais 200 conjuntos de vestuário, em troca das caças, frutos e colheitas de pau-brasil, além do grude de gurijuba que extraíram.

A feitoria da nova companhia ficou incumbida de armazenar produtos da caça e alguns minérios extraídos sob autorização de Hernandez, a fim de serem trocados com manufaturados que viriam em próximas expedições de Armsterdam. Além de manufaturados, expedições no futuro trariam livros para a biblioteca da pequena escola da vila, bebidas em barris de carvalho, roupas, material doméstico e novidades que poderiam surgir nos mercados da Europa.

Os navios já estavam prontos para a partida. O velho Mário está, no momento, conversando com seu neto, aconselhando-o a sempre agir com prudência, e a respeitar as pessoas.... estudar muito e aprender os ofícios de seu sogro.

Na despedida, foram cerca de 700 tucuju com seus filhos e netos.Var Der Linch, falando num espanhol arrastado, agradeceu aos guerreiros pela hospitalidade, reafirmando a disposição de respeitar os guerreiros que estavam viajando com ele, e em especial, o seu genro.

Aos poucos as galeras foram desaparecendo, uma a uma. Era hora do pôr-do-sol. Um relógio de sol, colocado no pelourinho da praça principal da vila, agora irá marcar períodos de tempo. A rotina, de qualquer maneira, mudou na vila. Mas os tempos mudam e a vida é assim mesmo.

Mário estava em comoção. Foi emoção demais. Seu neto, agora, segue rumo a lugares desconhecidos. Terá novos credos, novas esperanças e fortuna garantida. Beatriz ganhou um esposo e a felicidade. Moisés ganhou uma esposa, e muita fortuna. Mas a dignidade do tucuju, educado pela sua já saudosa mãe e sob orientação dos avós, foi o grande referencial que catalizará, sem dúvida alguma, todas as emoções e impulsos.

Na pequena vila a rotina recomeça. É necessário que tudo continue, pois este foi o legado que Itaraê deu a Mário. E Mário, como chefe da vila, estava cumprindo com o combinado, pois sabia que jamais desapareceria dali o aroma e a proteção de sua Niranaê, pois ela agora era anjo, e junto com Itaraê estavam presentes ali. Os homens do Norte teriam que esperar mais um pouco, para dominarem aquela vila acolhedora.


*** *** ***

Noite é presença. Coaracy se despede cansado. Os cricrilos e estalidos começam a embalar o som melodioso dos seres da floresta, contrastados com os murmúrios do mar amazônico. A pororoca, ao longe, esbraveja certeira, mas as ondas não estavam tão devastadoras. Ao contrário, passaram a cantarolar uma música apenas:.. Ni ra na ê... Ni...ra...naê..... Niranaê!

FIM

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