NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 24

Beatriz passeava tranquilamente na casa principal da vila, nesta primeira manhã após o sono maravilhoso da noite anterior. O capitão Van Der LInch tinha saído com Mário em uma expedição, para conhecerem mais a região. Moisés passou em frente à casa, e notou Beatriz sozinha, com seus pensamentos.

-- A senhora está bem? Falta-lhe alguma coisa? – perguntou Moisés à jovem.

-- Sim... preciso de companhia. – respndeu Beatriz, com um pouquinho de “maldade” disfarçada e inocente.

-- Mas a senhora não tem damas de companhia?

-- Sim, mas isso não é o suficiente para mim – respondeu Beatriz, olhando fixamente para Moisés.

-- Que tipo de companhia lhe é suficiente? – perguntou Moisés, desta vez mais curioso.

Depois de muito pensar, a jovem resolveu, corajosamente, satisfazer a curiosidade de Moisés.

-- A sua.

O jovem mestiço estava agora dominado por aquele olhar cândido e lânguido. Beatriz já sentia alguma coisa rolar no coração, que batia mais forte. O colorido dos olhos, as pupilas dilatadas... os dois estavam contemplativos pela musicalidade do momento. Eles ficaram por alguns minutos se fitando, se entremostrando. Moisés era mais tímido, e por isso mesmo, Beatriz, percebendo a ingenuidade do tucuju, resolveu quebrar o gelo definitivamente.

-- Fica comigo. Me faz companhia!
-- Mas a senhora não....
-- Senhora, não. Trate-me por você. E eu não sou melhor do que você, por tem toda esta natureza interior e exterior a serem compartihadas.

-- Você fala bo.... bo... bo.... nito” – murmurou Moisés, quase sem voz.

-- Tive oportunidade de estudar, viajar muito, aprender um pouco de cada povo... mas você também é formado pela escola da vida, esta natureza bonita que aqui vemos e sentimos. Se eu pudesse escolher entre voltar para Amsterdã e ficar por aqui, eu ficaria com você, para desfrutar dessa benesse divina que é a natureza, nessas terras. Esta calma me preenche toda...

-- Por que você não fica comigo, então? – perguntou Moisés, num tom de brincadeira.

-- Não é preciso que eu fique, porque você virá comigo para Amsterdã.

-- Você já sabe disso? – perguntou Moisés, surpreso com a reação da jovem européia.

-- Sim. Sei. Papai me contou, e quer saber de uma coisa? Eu adorei... mas primeiro, eu gostaria de saber o que você acha desta idéia.

-- O sorriso de Moisés confirmou tudo. Não é preciso falar. Este primeiro contato dos jovens se traduziu em momentos de paraíso. Moisés está frente a frente com Beatriz. Seus olhares se fitam. Eles se aproximam cada vez mais, mas uma sensação de medo domina o jovem. O magnetismo do olhar dá um “empurrãozinho” e eles se aproximam ainda mais. Um já sente o hálito e a respiração do outro. Beatriz é capaz de sentir mesmo, até o coração de Moisés. Ele quer beija-la, e percebe que se o fizer, Beatriz consentirá, mas ali... ao ar livre, na vista de alguém que pode passar a qualquer momento? Era perigoso demais. Ele estava mais preocupado com a reputação da jovem, do que propriamente de satisfazer aos seus desejos do coração. Onde estão as damas de companhia? Moisés não entendeu por que estava só, com Beatriz.

-- Moisés...

O murmúrio toma conta. O silencio ajuda nessas horas. O momento consente. Ele pega a mão de seu, agora, amor, e nota que Beatriz está gelada de medo. Aliás, os dois sentem medo, mas sentem também prazer. O pecado, às vezes, tem sabor... Pecado? Por que pecado? Eles estão transpirando amor por todos os lados. Então, nesta ótica, amar não é pecado.

O primeiro beijo foi na face. Ela o beijou também na face. Seus lábios agora estão apenas a poucos centímetros. Ela fecha os olhos. Ele passa a encostar seus lábios nos lábios formosos da jovem. O beijo poderia demorar, mas foi apenas um contato levei inocente. Tomados por amor intenso, eles se deram por satisfeitos.

Já era tarde. A mãe uirapuru começou a se agasalhar em seu ninho. A jaguatirica e a suçuarana iniciam os preparativos para mais uma caça. Van Der Linch e Hernandez se aproximavam, cansados de tanto andar, e percebem a presença dos dois. Já desfeitos da emoção antes sentida.

-- Vejo que vocês já se conhecem bem, héim? --- falou o capitão batavo, sem qualquer maldade na voz e nos olhos, pois ele confiava, piamente, em sua Beatriz.

-- É, papai. Eu e Moisés conversamos muito sobre a viagem e o retorno a Amsterdã.

-- Que achas de partir com a gente, caro jovem? Queres viver longe daqui?

Percebendo a torcida infrene que Beatriz fazia em torno desta decisão, Moisés respondeu prontamente.

-- Sim, meu capitão. Quero trabalhar com o senhor, conhecer seus pais e, quem sabe, casar e ter filhos... ter uma família...

Os olhos de Beatriz estavam radiantes, quando perceberam que Moisés olhava para ela.

-- Muito bem, meu neto! – quebrou, Hernandez, o gelo. – É assim que se fala. Se sua mãe estivesse viva, consentiria e estaria muito orgulhosa de você. – E num tom profético, vaticinou:

-- Não está muito longe o dia em que você me dará muitos bisnetos, e conhecerá a mulher de sua vida. Quem sabe, ela já não está bem perto? – concluiu Hernandez, num tom de ironia, e com um sorriso muito inocente para o neto.

-- O que o.... o senhor está dizendo? Por... por que o senhor fala isso? – Van Der Linch resolveu se adiantar, para deixar o jovem Moisés mais tranqüilo.

-- Não se desespere, meu rapaz! Eu e seu avô estávamos conversando sobre você e suas responsabilidades. Minha filha é uma pessoa maravilhosa, obediente, mas muito sozinha.Sei que ela precisa de uma companhia e sei que você é a pessoa c...

-- Meu pai, que é isso? – perguntou Beatriz, quase sem fôlego.

-- Calma, meu bem. Eu e o avô do rapaz nos entendemos bem, e conversamos muito sobre vocês. Você é obediente e precisa de alguém. Moisés é obediente, trabalhador e valente, e está só no mundo. Sua mãe morreu e não sabe quem é seu pai. Vocês poderão unir suas solidões. Eu já estou ficando velho mesmo, e você, como minha única herdeira, deve encontrar alguém à altura para tomar conta de você.

-- Papai, eu não sei o que dizer agora, neste momento – desabafa Beatriz.

-- Não precisa falar nada, meu amor. Tudo o que queria me falar, fala para Moisés.

Moisés, a essa altura, estava verde, amarelo, vermelho.... não sabia também o que fazer. Tentou pronunciar algumas palavras, mas foi em vão.

-- Vamos deixá-los novamente a sós, não é, Mário? – Van Der Linch piscou a Hernandez, que entendeu. E se dirigindo a Moisés:

-- Sim, vamos. Mas juízo, héim meu Não abuse da confiança do capitão. Respeite a moça e não me decepcione. Claro que confio muito em você. Pode ficar com a minha futura nora. -- E piscou para a jovem Beatriz, que soltou um sorriso com flagrância tucuju.

-- Mas vovô, não fica bem a gente sozinho aqui – no mesmo instante sentiu um beliscão de leve, vindo de Beatriz, que estava mais a fim de ficar, realmente, com Moisés. E novamente Hernandez falou ao jovem:

-- Calma, Moisés. Sei que vocês precisam conversar mais. Não se preocupe que lá do céu tucuju a sua avó e sua querida mãe estão consentindo essa união. Eu sinto muita paz e a possibilidade de sermos felizes com isso. Você, desde já, tem o meu consentimento e a minha bênção. – e se dirigindo a Beatriz: -- Filha, o que Moisés e você decidirem, têm o meu apoio. Não se precipitem em qualquer resposta. Siga o seu coração.

O velho galego beijou a face de Beatriz. A jovem não conteve a emoção, e chorou de leva. Moisés também estava tomado de emoção. Quando se retiveram, os dois velhos marinheiros já estavam distante, em direção à nau capitânea.

A volúpia do desejo do beijo e a vontade de tocar novamente as mãos de Beatriz foi mais forte. Frente a frente eles se olham. Beatriz, radiante e emocionada, reiniciou o diálogo com o jovem.

-- Moisés... o que você acha de tudo isso? Você concorda em ser meu marido?

-- Oi, Beatriz. Estou tomado de uma emoção muito grande, mas meu coração me diz que vai dar tudo certo entre a gente. Só não sei se eu vou conseguir completar você, que é mais educada e mais culta do que eu. Eu não sei se isso vai ser obstáculo para a gente ser feliz.

-- Eu entendo você, Moisés. É claro que eu pertenço a outra realidade... freqüentei colégios famosos, conheci rapazes nobres, filhos de gente famosa, rica...nunca ousei falar a algum deles o que eu estou a lhe falar agora. Nunca me senti tanto à vontade com eles, como eu estou me sentido à vontade com você agora. Papai não teve muita sorte no amor. Apesar de filho único, como eu, e que herdou todos os bens de seu pai, entre naus, galeras, castelos em Amsterdã e Roterdã, companhias de comércio espalhadas entre colônias de além-mar... ele nunca conseguiu ser feliz, e olha que ele teve muitas pretendentes. Eu represento, para ele, o total de sua felicidade. Sua vida boêmia, inicialmente, foi freada em razão da atenção que teria de dar para mim. Ele jurou por mim, que não colocaria obstáculo no homem que eu escolheria para ser minha cara-metade. Eu escolho você para ser o homem da minha vida, e não quero respostas negativas.

-- Onde está sua mãe? Você não me falou dela, ainda. Ela já morreu? Ela se separou de seu pai?

-- Ela já está morta, meu amor, mas eu a tenho sempre cativa no meu coração. Ela morreu muito cedo, e não a conheci direito. Mas por favor... depois eu falo de você sobre esta fase da minha vida. Não quero misturar nossa alegria com a saudade imensa que sinto da minha mãe. Vamos pensar que ela está a nos olhar e a gostar muito de você, ta?

Vendo duas lágrimas que rolaram do rosto de Beatriz, Moisés resolveu não tocar mais no assunto.

-- Está bem, meu anjo. Mas parece que você tem uma coisa muito importante a me dizer, não é? --- lembrou o jovem.

-- Sim, Moisés, tenho. Mas antes, é preciso eu ter a certeza e ver se existe mútua aceitação de nossos corações. Nós nos conhecemos há poucos dias, e sei que qualquer decisão precipitada põe nossas vidas em perigo. Mas, por favor, responda-me: você sente, realmente uma profunda afeição por mim? Você é capaz de me amar? Você não está com nenhuma dúvida sobre isso?

-- Mas que tipo de afeição, por exemplo? – perguntou Moisés, numa expressão de brincadeira. O que recebeu reação imediata da jovem.

-- Ó, Moisés! Você está brincando comigo nesta hora tão séria? Por favor. Não brinque comigo. --- E a jovem começou a chorar. Moisés ficou preocupado, e interveio logo.

-- Está bem, querida. Desculpa, meu amor. Não quis magoá-la. Claro que eu que quero você, e lhe tenho muito amor.

-- Querida? Meu amor? Você me quer? Puxa, Moisés. Era tudo isso que eu queria ouvir de você.

O rosto estampado de alegria de Beatriz se transformou. Ela temia que Moisés fosse forçosamente viajar com eles, apenas como irmão ou amigo de companhia. A noite vinha cada vez mas convidativa para todos. Jurupari, matreiro, já observava o casal ao longe, Iratu, no entanto, ordenou a vinda de uma chuva fina, evitando quaisquer precipitações dos dois. Mais uma vez Jurupari não conseguiu seu intento.

-- A chuva já está aí, Moisés. É melhor nos despedirmos que amanhã temos muito o que fazer.

-- É verdade, Beatriz. Amanhã tenho também surpresas para você.

-- Surpresas? Por que falou isso? Sou supercuriosa. Droga! Agora vou ficar acordada a noite inteira pensando nesta surpresa que você terá para mim amanhã. Você é muito mau comigo...

Moisés não deixou completar. Os lábios de Beatriz receberam imediatamente aqueles lábios tão esperados do amado. Por esse momento ela sonhou tanto. Sensação de paraíso recuperado, tornando-se plenitude. Foram momentos travestidos de eternidade. O amor não tem a medição do tempo. Beatriz deixou escapar um pequeno sussurro.

-- Moisés... Moisés...

Eles estavam agora enamorados. Após as despedidas, Moisés foi direto à sua casa. O avô já estava dormindo. Van Der Linch fazia algums anotações no seu diário de bordo, antes de dormir. Beatriz beijou-lhe a face e sussurrou agradecimentos pelo momento mais bonito de sua vida, que teve a ajuda dopai.

-- Eu lhe amo muito, meu pai. O senhor não imagina a felicidade que toma conta de mim agora. É a sensação mais maravilhosa do mundo... e...

-- Eu sei, meu amor! Você percebe que eu começo a me sentir cansado. Você é a minha única filha, e única herdeira. Os rapazes de nossa querida Europa, na maioria, são espertalhões que querem se aproveitar e abusar das filhas de gente de bem. Você precisa mais, é de uma pessoa responsável, para que eu possa instruí-lo, a fim de gerir os meus negócios. Vejo em Moisés um futuro bastante promissor, primeiro porque ele é uma pessoa pura, e muito trabalhadora. Além domais, ele tem sangue galego e castelhano singrando nos afluentes de suas veias. Ele gosta de você, sem maldades e sem interesses somente no seu corpo. Na realidade, ele não tem nem idéia da fortuna que tenho. E muito mais: vocês se amam. A educação que recebeu do avô não veio de nenhuma universidade famosa, mas foi suficiente para transforma-lo num homem de bem. O resto é comigo. Nós precisamos dele e ele precisará muito da gente. Ele não tem vícios e isso é bom. Não conheceu o pai e, como você perdeu a mãe cedo. Está agora só no mundo, e temos condições de ajuda-lo.

-- Meu pai, estou descobrindo, neste instante, outras qualidades nobres no senhor. Estou duplamente feliz, porque tenho um pai maravilhoso e um homem que me ama. Eu lhe juro que devotarei todo meu amor por Moisés, e toda minha reverência ao senhor, para sempre. Ele já revelou que me ama. O amor é a coisa mais maravilhosa do mundo, exatamente porque não vê convenções sociais. Para o amor, não existem abismos.

-- É, filha! Deus te abençoe, e durma bem..... --- e Beatriz interrompeu:

-- Posso lhe fazer um pedido, meu pai? – E curioso, o velho capitão respondeu:

-- Faça, meu bem.

-- Sei que a partir de amanhã as coisas podem mudar. Deixe-me dormir com você esta noite? Eu preciso tanto do seu carinho, do seu amor, da sua segurança. Posso, pai?

-- Claro, meu anjo. Hoje a gente dorme junto. Hoje você é ainda a minha criancinha e o papai vai fazer você dormir. Quem sabe, a partir de amanhã alguém me substituirá para fazer você dormir todas as noites? Vamos dormir, meu amor, que amanhã será a grande festa.

-- Grande festa? Que festa? – perguntou, surpresa, a jovem.

-- De seu casamento, meu bem.

E Beatriz ficou muda. Não sabia o que falar. De repente, perguntou ao pai:

-- E Moisés sabe?

E o velho capitão, num sorriso de pai apaixonado:

-- Claro que sim, meu bem.

-- Droga! Por que então ele não me contou?

-- Isso faz parte das surpresas, meu amor. Como seu pai, eu fiquei incumbido de te dar a noticia.

-- Ó, pai. Eu não tenho palavras para exprimir tanta gratidão. Acho que não vou agüentar tanta felicidade. Quer dizer que hoje, quando você e o avô de Moisés saíram, foi para conversar sobre nós?

-- Não exatamente! Conversamos muito sobre essa vila e sobre os tucuju, mas o assunto predominante foi você. Ele pediu você para ser esposa de seu neto. Eu ponderei, perquiri,me perguntei sobre isso, questionei muito... e acabei aceitando a idéia.

E surpresa, Beatriz perquiriu:

-- E não passou pela sua mente a possibilidade de eu não aceitar?

-- Eh, menina! Será que eu não conheço mais a minha filha? Quando conversei ontem com você sobre ele, foi de propósito, e senti você toda animada, toda colorida! Do contrário, você ficaria triste se eu não aceitasse. Claro que impus a condição de você ser de Moisés, mas de Moisés vir com a gente. Senão, eu perderia o contato com você para sempre. Verdade ou não é? Acertei em cheio ou não?

Beatriz não precisou responder. O abraço carinhoso em volta do pescoço do pai foi a resposta, acompanhada de beijos. Ficaram abraçados a noite toda, e se acordaram abraçados.

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