NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 23

A linda Beatriz resolveu descer para ir ao encontro do pai. Eles se alojaram no quarto da casa principal da família de Hernandez. Após muita prosa e muito rum com os cavalheiros, e sucos naturais com as damas, que conversavam separadamente, a noite já começava a cumprir seu itinerário. Assim, eles resolvem dar guarida ao descanso.

O dia amanheceu, e maioria dos índios, principalmente os mais antigos, estava assustada diante da presença dos “homens brancos”. Itaribá, um dos guerreiros mais velhos, pensava até na possibilidade deles serem os “homens do norte” profetizados por Itaraê, que estavam vindo sorrateiramente. Por isso mesmo, convinha, disfarçadamente, ficarem de olho. No Conselho dos Chefes o velho Itaribá tinha grande poder de influencia, e prometeu que iria questionar sobre a presença batava.

-- Por que você insiste tanto em prejudicar nossos hóspedes? – perguntou Hernandez ao velho guerreiro.

-- Índio percebe perigo homem do norte. Homem do norte tem língua estranha. Estes homens têm língua estranha, muitos homens, paus que cospem fogo e cheiro de morte. Itaribá percebe perigo de perto. Melhor Mário verificar direito, até mesmo para nosso bem – falou, profético, Itaribá.

-- Está bem. Concordo com a preocupação vinda de você. Mas será que não podemos dar alguma oportunidade a eles? Acho que honestidade e os bons princípios ainda não foram sepultados...

-- Mas homem está sepultando... principalmente homem branco que sepultou há muito tempo honestidade. Tirando você, Mário, índio não confia mais em homem branco. Índio sempre foi enganado por homem branco que rouba nossas mulheres e coloca veneno de branco no seu corpo.

Hernandez ouviu tudo em silêncio e, com reverência. Dialogar com o velho Itaribá era bom; o difícil é convencê-lo. Aliás, o próprio Itaribá foi contrário à presença dele nas terras tucujus. Sabendo que esse diálogo não levaria a nada, Mário resolveu se despedir de Itaribá e continuar seus afazeres. O índio entendeu e ficou em silêncio, meditando consigo: “Mário ainda pensa como o homem branco. Isso é ruim para ele. Isso é perigoso para nós”.

-- Que achas destas terras, pai? – perguntou Beatriz, quebrando o silêncio.

-- Bonitas, filha. Mas ficaremos por pouco tempo. Tenho de cumprir a missão de Sua Majestade. Temos ainda muitas aventuras pela frente. Não se preocupe.

-- Isso quer dizer que não ficaremos muito tempo por aqui?

-- Só o suficiente, para nos recompormos. Nossa tripulação está exausta e precisa descansar. Estamos fazendo uma viagem longa. Já combinei com Mário para que ajude nossos caçadores a arranjarmos caça para manutenção na viagem. A galera de suprimentos tem que ser novamente cheia. Temos bastante sal, e isso é bom para podermos conservar a carne. Já enchemos os barris de água potável e, parece que vai, a partir de agora, tudo às mil maravilhas.

-- E o grude de gurijuba que o senhor ia negociar com eles? – lembrou Beatriz.

-- Este vamos deixar para uma outra oportunidade. O momento, agora, não é propício.

-- Isso quer dizer que o senhor ainda pretende voltar por aqui? – perguntou, surpresa, a jovem.

-- Sim, claro, meu bem! Conversei com Mário, e ao que tudo indica, teremos oportunidade de fazer um intercambio comercial. Estou planejando para que fiquem aqui três homens nossos, e levaremos para Amsterdan três índios. Um deles vai ser o neto de Mário... o jovem Moisés.

Beatriz começou a gostar da idéia. Já havia notado Moisés, mesmo distante. Aquele misto de índio com galego dava a Moisés traços fisionômicos perfeitos de um europeu.

-- Moisés é aquele em que lhe morreu a mãe?

-- Sim – respondeu o capitão – Parece que ele é um bom rapaz. Tem 24 anos, e vejo-o muito dedicado ao trabalho. A morte de sua mãe o deixou um pouco constrangido. Mário contou-me a história de sua mãe, e vejo-o sempre sozinho em seus pensamentos. Acho que ele pode até mesmo lhe fazer companhia. Que achas de ganhar um indiozinho de estimação? – perguntou à filha, com um tom bem humonístico.

A expressão “indiozinho de estimação”, é claro, tinha a interpretação de “irmãozinho”, e ela mexeu um pouco com Beatriz, que já pensava na amizade de Moisés, não nesse limite. Mas não imaginava a jovem que o destino estava a lhe pregar uma boa peça. Já começava a desconfiar disso, quando percebeu que a presença do rapaz já estava mexendo com o seu coração.

-- Beatriz, minha filha... você está me ouvindo? Eu lhe falei alguma coisa que você não gostou? É sobre Moisés? Olha... isso é apenas uma idéia. Ainda não resolvi. Se você não gostou do rapaz eu posso...

-- Não! – gritou imediatamente Beatriz, quebrando o diálogo do pai.

-- Tá bem! Já que você não aprova a idéia, Moisés não vai conosco. Eu vou...

-- Não, papai. Você não entendeu. Por favor, não impeça Moisés de viajar. Eu quero Moisés comigo.Ele é uma boa companhia! Eu... gosto dele!

A revelação deixou o velho capitão dividido e preocupado. Mas o batavo, experiente da vida, percebeu que elas vinham do fundo do coração de sua Beatriz. Nunca tinha visto o rosto da filha tão animado! Preocupava-o todo o trajeto da viagem pelo mar, sem uma companhia para conversar descontraidamente. Preocupado, porque nesta revelação de Beatriz a linguagem do amor falou também. Ela estava apaixonada pelo rapaz. Por outro lado, seria melhor que imperasse o silêncio do pai, por enquanto.

A brisa passou, e o coração de Beatriz não se conteve com as batidas rápidas de seu coração, associadas a uma pequena dificuldade respiratória. Seu pai percebeu que a filha querida estava abrindo seu coração pela primeira vez, e muito espontaneamente. O novo colorido no rosto, a face da jovem... tudo isso comoveu o velho e apaixonado pai que, diante de tanta alegria da filha, prometeu que convenceria Moisés a viajar com eles.

Pensou daqui... pensou acolá. Será que realmente não falaria nada, de seu ponto de vista, a Beatriz? A sua preocupação de pai foi maior. Resolveu voltar atrás:

-- Por que esta reação, menina? – E num tom de preocupação: -- não vem me dizer que sente alguma coisa por ele. Se for isso, eu tenho que impedi-lo de viajar conosco. Não quero que você se envolva nesse tipo de sentimento ainda jovem demais.

-- Não, meu pai. Deixe-o vir. Por favor, não vá frear esses meus momentos raros de alegria, que se completa, sem dúvida alguma, com a sua preciosa presença. Estou abrindo meu coração para o senhor, porque o senhor é meu pai e meu melhor amigo!

Depois desta revelação, várias lágrimas rolaram no rosto do velho batavo. Beatriz percebeu a emoção, e fez um gesto de pegar um lenço a fim de limpar as lágrimas do rosto, agora frio e suado, do pai.

-- Mas meu anjo, isto não está certo. A propósito, o mancebo já sabe alguma coisa sobre isso? Ela já te revelou algo sobre seus sentimentos? Héim, menina? Responda logo! Vocês tiveram alguma aproximação?

-- Não, meu pai. Não é isso que você está pensando. Claro que não! Não conversei com ele ainda. Sequer não trocamos palavras. Mas por favor, deixe que ele se aproxime. Afinal de contas, ele é o cavalheiro e eu a dama.

Van Der Linch não tinha felicidade maior do que esta de conversar com a filha. A cada dia ele percebeu que a filha tinha uma carga hereditária forte dele mesmo, e isso o admirava cada vez mais. Desde quando Beatriz nasceu, ele sempre pensou em ter um filho, para conduzir os seus negócios após a sua morte. Mas a cada momento que passa, ele percebe que a filha tem, também, nas veias, este sentido de administração e responsabilidade. Mas sua preocupação maior era em relação ao universo do amor, que tem também suas armadilhas. Ele poderia prever tudo, menos que a filha sofresse. Bastava a dor provocada pela perda prematura da mãe. Ele teve muito trabalho para confortar a filha, que não permitiu, em nenhum momento, ficar num orfanato ou numa escola interna enquanto o pai viajava. O poder de convencimento da filha foi essencial para que ele a autorizasse a realizar as viagens através de seus navios.

-- Fique calma, Beatriz! Moisés vai conosco, mas antes quero conversar com ele, para que tudo fique bem às claras. Também há necessidade de convencer seus familiares desta partida. Ele não conheceu o pai, a mãe morreu, mas têm seu avô, tios e primos, que lhe têm muito amor e muita estima. Caso esteja tudo certo, eu vou expor a ele algumas regras que tem de cumprir durante as viagens com você. Está certo assim?

O sorriso de Beatriz e uma dúzia de beijos no rosto do pai, além de um pequeno cafuné em seu cabelo, foi a resposta suficiente, e o velho marinheiro se deu por satisfeito. Beijando a face da filha, carregou-a pelos braços, colocou-a no leito a seu lado, e contou uma história até a filha dormir.... ela dormiu sorrindo.
A noite caiu. Agora, apenas, os cricrilos e estalidos dos pequenos animais da floresta estavam enfeitando o ambiente. Todos estavam nas embarcações, ancorada perto da praia.

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