NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 22

Ano de 1546, na contagem do homem branco. A nau holandesa do capitão Alexander Van Der Linch começava a aparecer no horizonte.

-- Aí, marujada! Finalmente vamos fazer uma parada, depois de muitos meses de águas e mais águas. – e se dirigindo ao timoneiro: -- vês alguma coisa suspeita, timoneiro?

-- Até agora não, meu capitão. Por enquanto estamos vendo apenas o horizonte verde. Quem sabe daqui há algumas horas?

Era isso que preocupava o capitão Van Der Linch: o silencio. Esta era a arma mais eficaz do povo tucuju. Repentinamente o ataque poderia vir. As cinco galeras batavas estavam enfileiradas a nau capitanea. Uma voz fina quebrou o silencio:

-- Papai... papai....

-- Que é, minha flor? – respondeu o velho marinheiro. Aparece agora uma mulher jovem, aparentando 17 anos. A silhueta inocente da jovem holandesa mostrava o lado carinhoso e amável do capitão batavo.

-- Que terra é esta? Já estamos em Amsterdam?

Se ouviu uma série de risadas dos marujos. A jovem ficou um pouco incomodada, e sentindo isso, o comandante esbravejou a tripulação para que não fizesse mais esse tipo de brincadeira. Todos o obedeceram imediatamente. E o velho marujo se dirigiu a Beatriz, nome da jovem, sua filha.

-- Não, meu amor. Ainda teremos um pouquinho, ou talvez um poucão, de tempo para chegar á nossa pátria. Temos de encontrar, primeiro, algumas missões holandesas por aqui, para que possamos entregar uns mantimentos e alguns móveis e tecidos.

-- E, meu pai... estou vendo que valeu a pena a gente aprender o castelhano. Já estamos chegando, então, á Castela?

E o pai, velho lobo do mar, mas com paciência de cordeiro:

-- Não, minha princesinha. Estas terras são desconhecidas ainda, mas têm várias incursões de nossos patrícios por aqui, além dos galegos e castelhanos. Logo, logo, encontraremos uma dessas missões de nossas Espanhas.

Já havia passado do meio-dia. Ao longe, o timoneiro da nau capitanea dá seu primeiro grito. Padre Inácio estava se preparando para a aula de catecismo na vila, quando percebeu a chegada da esquadra. A jovem Beatriz, juntamente com os tripulantes das naves, começou a perceber os habitantes de Santa Luzia de longe. Os tucuju estavam um pouco amedrontados com isso, pois não era de praxe visitas como estas.

-- Atenção, pilotos, vamos iniciar a atracação, mas vamos atracar com alerta total. Não sabemos quem estaremos enfrentando. Porém, só reajam com minha orientação. Por enquanto, não façam nada.

A ordem foi distribuída para todas as galeras, através de sinais. Mas não foi preciso muita cautela. O aceno do jesuíta da missão tucuju fez com que o capitão parasse, um pouco, de se preocupar. Infelizmente, o calado do navio é muito grande para atracação no porto improvisado, preparado mais para encosta de canoas. Alguns botes foram colocados na água, e o oficial batavo já estava chegando em terra com seu ordenança, acompanhado de uma guarnição logo atrás. Mário estava presenciando tudo, mas um pouco preocupado.

-- O senhor fala castelhano? – perguntou o oficial holandês a Hernandez.

-- Sim, senhor – respondeu Mário.

-- Bravo! Que sorte a nossa, então! Escute, senhor.... como é mesmo a vossa graça?

-- Mário Hernandez.

-- Senhor Mário, sou o capitão Alexander Van Dr Linch, e estou, com minha filha Beatriz, missionários, oficiais e pessoas da minha rainha em viagem de visita por estas costas. Tenho a missão de localizar missões holandesas por estas terras, para fazer o reconhecimento. – explicou, num espanhol muito precário, o oficial holandês.

-- Se o senhor vem em paz, que seja bem-vindo à nossa vila. De onde o senhor vem mesmo, capitão?

Antes de satisfazer á curiosidade de Mário, o velho oficial, satisfeito com a acolhida, forneceu um alambique do melhor rum produzido em Amsterdan.

-- Venho de muito longe, amigo, e já estou há dois anos viajando. Estou acompanhado de minha filha única, porque a esposa já é falecida. Por causa da saudade que ficou, resolvi dar um tempo à minha vida, nomeei administradores para meus castelos e outras posses em Amsterdan, e, mediante acordo que consegui com o Império de meu país, estou viajando por estas terras do novo mundo. A Beatriz já está bem acostumada com estas viagens, e é a única maneira de ficarmos juntos. Tenho preceptores e damas de companhia que nos acompanham, que dão toda a orientação necessária a uma boa jovem se educar.

-- E onde está sua filha agora, capitão? Quando teremos a honra de conhecê-la? – interrompeu Hernandez, com um tom de curiosidade e respeito.

-- Beatriz está na nau capitânea. É o meu maior tesouro...

-- Sabe, capitão, a minha história também é cheia de acontecimentos interessantes. Sou de Castela e fazia parte da nau do comandante Pinzón...

-- Pinzón, o grande navegador? – perguntou, bastante, exclamativo, o capitão Van Der Linch.

-- Sim, senhor capitão. O senhor o conhece?

-- E quem não conheceu este homem, que ficoufamoso em toda a Europa?

-- Não entendo. Por que a expressão “conheceu”, capitão?

-- Ele já não pertence mais ao mundo dos vivos.

Hernandez ficou por alguns minutos pensativo, com um misto de tristeza e saudades. Ele atinda tinha esperanças de encontrar seu antigo chefe vivo. A noticia de sua morte pelo capitão Van Der Linch veio com muito pesar. Nesse mesmo instante, chegam os padres João de Deus e Luís Inácio, que quebram o diálogo dos dois homens experientes. O oficial batavo, ao avistar os jesuítas, dá-lhes boas vindas.

-- Bom dia, padre. Tudo bem com o senhor?

Olhando fixamente para o oficial, o padre Luís Inácio sorri-lhe, dando-lhe as boas vindas como de praxe. Em seguida, interroga-o:

-- O senhor é batavo, não é?

-- Sim. E o senhor é portugues legítimo, nao é? – pergunta o oficial.

-- Na realidade, sou português filho de portuguesa e castelhano. Eles se conheceram em Lisboa, mas resolveram, após o casamento, se mudar definitivamente para Castela. Mas o senhor é batavo mesmo? – insistiu padre Inácio.

-- Sim, meu padre. Já lhe respondi, homem de Deus. Mas por que insistir tanto nesta pergunta, meu bom homem?

O padre, meio sem jeito, mas com um tom de preocupação, resolveu “soltar a língua”:

-- Bom. Se é batavo, não deve ser católico, não é mesmo?

Meio desconfiado, o capitão resolveu ser bastante diplomático na resposta, olhando fixamente para o religioso da Companhia de Jesus:

-- Sim, mas não vejo problema algum. Não é o senhor que via criar esse problema agora, não?

O religioso ficou pensativo pela pergunta. Mas parece que, finalmente, caiu em si mesmo.

-- Claro que não! Oh, capitão... me desculpe a falta de ética. Acho que esta curiosidade foi inoportuna, e sem querer. A minha fé é católica apostólica romana. Sou líder desta missão aqui em Santa Luzia, mas as suas idéias reformistas não abalarão nossa amizade, tenha certeza disso. Me desculpe, mais uma vez, pela minha intolerância.

-- Puxa! Que alívio! Que bom o senhor pensar assim.

Mário percebeu que a noite tinha chegado. Foi praticamente um dia de longas conversações. Apesar da lembrança ainda marcante de Niranaê, ele agora tem outros motivos para se preocupar com outras coisas. Como novo líder dos Tucuju, legado de seu sogro Itaraê, que também já está nas lindes dos grandes guerreiros celestiais, ele já havia autorizado o capitão a descer, com sua tropa, para pernoitarem na vila. Mas temendo o desconhecido, já que a maioria dos comandados de Van Der Linch poderiam molestar as mocinhas da vila, ele acertou com o oficial que eles ficariam no navio, mesmo.

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