NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capitulo 21

Aracém contemplava seu filho Mauritanio, agora com oito anos. A instrução da floresta e a educação jesuítica são bons indicativos para projetar o menino na sabedoria. Mauritanio já sabe pescar, e é destro como o pai, na caça... e isso aos oito anos. Os missionários já estavam de olho há muito empo em Mauritanio. No entendimento do padre João de Deus, o filho de Aracem tinha vocação religiosa. Os progressos alcançados na escrita, na aritmética, no domínio das línguas grega e hebraica, básicas para o entendimento das Escrituras Sagradas, além do esforço de Mauritanio nos afazeres domésticos, fizeram com que o missionário português acreditasse na vocação de Mauritanio.

Assim, com o consentimento de seu pai, Mauritanio passou a fazer uma experiência de postulante á vida religiosa, primeiro passo para a aceitação como noviço, de acordo com a experiência jesuítica.

Nesse ínterim, Hernan e Surini pensam em seu curumim Manuel, que a estas alturas já tem 13 anos. O pequeno lugarejo de Santa Luzia de Tucujus esta se desenvolvendo. Manuel ajuda o pai a fazer uma pequena lavoura, para a subsistência da família. O serviço é pesado. Surini também recebe ajuda doméstica do pequeno Mauritanio, que está descascando mandioca para fazer farinha. A família está integrada, mas na pequena vila sempre voltam á tona as ameaças dos “homens do norte”.

O grande acontecimento foi a primeira eucaristia de Manassés. Foi uma festa e tanto. Mauritanio a essas alturas já se distanciou um pouco do projeto dos padres, e eles passaram a volver os olhos em Manassés. Os pais de Manassés também não se impunham no desejo do filho de freqüentar o noviciado na longe Galicia. Os jesuítas estavam providenciando para que ele partisse em uma próxima viagem.

Potira ajuda Hernan e Surini nos trabalhos. Agosto de 1542, e Orellana já está descendo as águas misteriosas do Grande Rio, atingindo o Atlantico após uma viagem de dois anos, na contagem do homem branco. O vilarejo está tranqüilo, mas ate quando?

Surini morre aos 40 anos de idade, de morte misteriosa. Há muitos dias ela vinha sofrendo de febre alta, seguida de vômitos e diarréia intensa. “Foi vontade de Iratu... foi desejo de Tupã”, disse Hernan, silencioso e abatido, pela partida muito prematura de sua amada. Seus filhos, ao longe, o contemplavam, mas não ousavam perturbar seus pensamentos e seu silencio. Ivone vê o corpo cansado da mãe, estendido agora na mesa da sala principal. O pranto lhe sucumbe o peito, mas a floresta tem seus mistérios e suas compensações. Um dos mistérios, o desaparecimento de sua irmã Rosa Helena que, tendo sido vista pela ultima vez banhando-se na cascata principal do rio Oiapoque, sumiu sem deixar vestígio. Supõe Setiribá que ela tenha sido devorada pela sucuri.

Manassés finalmente viaja com os jesuítas rumo á Galicia, e ingressa na vida sacerdotal. Enquanto isso, a vida corre célere na aldeia. Amália recebe a visita de Jurupari e parte, também para o plano celestial. Moisés, seu único filho, que não conheceu o pai, despediu-se da mãe aos 22 anos. Agora ele se sente só.

A malária levou César Augusto, mas Iratu enviou a linda Neuracy para compensar os sofrimentos do irmão. Mário agora está com 66 anos, na contagem do homem branco.

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