NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 19

A noite foi bastante curta para a pequena família de Jacareí, mas deu para eles colocarem em dias todo o papo.

-- Você acha que a gente deve confiar no coronel, meu bem? – perguntou Jacaré para sua Itanuchá.

-- Meu marido, você não disse para ele que não existiam outras alternativas? E além do mais, nós viemos exatamente para falar com ele e tentar melhorar nossa família. Depois do que aconteceu comigo e com você ontem, eu já não me sinto com....

-- Olha, meu coração. Se a gente quer recomeçar a vida, é melhor colocar pedra nesse grande poço que caímos e acabamos de sair. – lembrou Jacareí, percebendo que duas lágrimas rolaram do rosto da sua Itanuchá.

-- Está bem, meu amor. Eu prometo que não vou falar mais no assunto. Por amor a você, eu estarei bem durante esses dias que você estiver na mata. Prometo ter paciência. Acho que a gente vai melhorar, e quem sabe, a gente não irá se dar bem por aqui?

-- É assim que se fala, meu amor. – parafraseou Jacareí. Com isso, eles resolveram dormir abraçados à filhinha, e com saudades da outra que ficou com a avó, por insistência da própria mãe de Jacareí.

Dia seguinte, mal apareceram os primeiros pontos luminosos do sol, os peões acordaram Jacareí que, se despedindo da mulher e da filha, acompanhou os trabalhadores rumo às matas. Mal se embrenharam no compacto da floresta, Jacareí começou a sentir saudades de sua Itanuchá. A partir de agora só restaria contar seis ou sete dias e noites, para poder regressar aos braços de sua mulher querida.

Depois de uma semana ele regressa. Foi procurar a mulher na casa principal. Mal se aproximou, um escravo lhe deu um aviso:

-- Hoje patrão chegou mais cedo, e levou sua mulher para um passeio. Os filhos estão com a mucama.

Já faziam duas semanas que essa rotina se repetia, e nada de Itanuchá aparecer. A desculpa é que sua mulher estava em outra casa cuidando bem da sua menina. Finalmente chegou uma oportunidade: o coronel teve que fazer uma viagem até Feliz Lusitânia, e não tinha perspectivas de um retorno breve. Assim, Itanuchá finalmente pôde se encontrar com Jacareí, e juntos se dirigirem à casa principal.

-- Ô mulher! Onde você estava, diacho? O que lhe aconteceu? Eu, que sou seu marido, não tenho mais o direito de te ver em todos os meus retornos do trabalho? Tu não gosta mais de mim?

-- Ô, meu amor, claro que te amo muito! Só não sei direito o que aconteceu comigo.

-- Como assim? – perguntou novamente o marido, assustado.

-- Da última vez que nos colocaram aqui, tenho a impressão que não saí daqui. Dormi muito. Todas as vezes que me acordava, me acordava sonolenta. Olhava em volta e via a nossa filhinha dormindo aos braços de uma das mulheres que está comigo. De outras vezes a criança não estava, mas todas as vezes que isso acontecia eu pedia para ver nossa linda filha e eles traziam, mas ela estava sempre dormindo. Sempre, quando acordada, com nossa menina no colo. Todas as vezes que eu perguntava por você, uma das mulheres me dizia que você estava com o coronel. Um fato estranho é que, quando me acordava ainda estava com sono, e percebia alguém deitado na mesma cama bolindo comigo, mexendo nas minhas partes íntimas. Pensava que seria você, mas o cheiro era de alguém estranho no quarto.

-- Minha querida mulher, eu não queria pensar isso, mas esse homem estranho só pode ser o coronel Parente! Desde quando nós chegamos aqui, eu não tinha ainda visto você. Sempre me davam alguma desculpa de que você tinha saído com ele e as crianças. – explicou Jacareí, que começou a imaginar o que teria acontecido, em sua ausência, com sua mulher! – Me responda pelo amor de Deus, querida, você notou mais alguma coisa estranha? Por mais que você não goste, mas você tem que me contar, meu amor. Eu sou seu marido.

-- Nessas noites que se seguiram, uma mucama vinha comigo, levava nossa menina e me deixava só. Ela dava-me banho e na água misturava umas essência que sempre supus serem perfume apenas. Uma cuida cheia de água e de um líquido estranho, mas gostoso, me era servido. Sob os olhares delas eu bebia. Depois, começava a dormir e só me acordava pela manhã, com dores na barriga, nas minhas partes íntimas e na altura dos meus seios. Via sempre a mucama dar banhos na nossa filha. Lavava sempre minhas partes íntimas pela manhã. Coisa estranha é, todas as vezes que eu dormia, pela noite, eu sentia-me leve. Ao acordar, no dia seguinte, sentia-me pesada e sonolenta, com um cheiro estranho. Estou desconfiada que alguém, todas as noites, abusava de mim.... – dito isto, a mestiça começou a chorar algo, abraçada a seu marido. Jacareí percebeu a aflição de Itanuchá, e como uma sacudidela de leve, ele falou:

-- Você está louca, mulher? Quem iria fazer uma coisa dessas, sabendo que você é minha mulher, e ainda com esta criança nova?...

Mas Jacareí resolveu cair em si. Um clarão de memória o fez lembrar-se dos incidentes ocorridos meses atrás. – Mas não é possível... será que o que estou pensando foi o que aconteceu? Não pode ser! Fomos enganados de novo, e o tempo todo...

A cotovia começou a soprar nas palmas das bacabeiras. O barulho das cristas das ondas do grande rio começou a se ouvir. Jacareí, Itanuchá e o bebezinho resolveram esperar o aviso da coruja. A fuga dali era necessária, e a hora era aquela, em que o capitão estava fora da fazenda. E ninguém iria impedir sua fuga, pois o guerreiro tucuju conhecida a floresta e os refúgios com a palma da mão.

Após o barulho da coruja eles foram devagar, aos poucos, se perdendo na floresta. O rastro de humilhação foi se avolumando no coração de Jacareí: primeiro, foram os dois peões que abusaram da jovem índia. Depois, a boa vontade de Maciel Parente tornara-se enigmática perante o sumiço de Itanuchá, por duas longas luas. No reencontro, o relato muito mais enigmático e inocente da índia. Jacareí queria saber mais, detalhadamente, o que aconteceu à sua mulher, mas ao mesmo tempo estava assustado com as revelações. Sua Itanuchá, por sua vez, estava muito mais assustada ainda, com toda esta canalhice do homem banco. De seu sogro, sempre se ouviram historias desse tipo, mas a índia nunca acreditou nelas. Por ironia da história, aconteceu exatamente com ela, e no primeiro contato com os homens brancos.

Parente, o enigmático cavalheiro... já estava longe. As dúvidas de Jacareí o atormentavam. Será que aquele homem, grandão, com ares de protetor, voz pesada, dormia todas as noites com Itanuchã? Como comprovar? Não adiantava, agora, tomar satisfações, pois o capitão já não estava mais ali, muito embora a lembrança dele ainda incomodassem o casal.

Para Itanuchá também estava difícil entender. Aquele homem, que tinha idade suficiente para ser seu pai, tinha sido seu amante por duas luas, sem seu consentimento. Jacareí foi o primeiro homem de sua vida... e ela queria que fosse o único que provaria “do leite inicial do jogo proibido para as mocinhas”.

Jacareí sabia o que se passava na cabecinha de sua Itanuchá. Amava-a muito, e por isso mesmo não ousou interromper seus pensamentos. Os acontecimento têm que ficar para trás, mas os rastros de dúvidas sobre a extensão de tudo isso ainda estavam latentes em sua mente. Assim se passaram mais duas luas. A família já avistava pistas de seu território. A casa dos parentes já estava por perto.

Hernandez quase recebeu a visita da morte, já sexagenário. Foi o “mal palustre” que o fez tremer e ter muitos calafrios. Novamente os conhecimentos espirituais de Itanhaê o curaram, com suas milagrosas ervas medicinais. Niranaê ouviu todo o relato. Ela passou a mão sobre o cabelo da nora. O conforto do velho Mário ao filho Jacareí já não tinha limites. O amor venceu novamente.

-- Filho, você sentiu na pele o quando o homem branco é hostil. Nessas alturas, eu me envergonho de ter esta cor. O homem sempre foi hostil. As enxurradas de dureza de nossa vida nos fazem muitas vezes desistir de nossos propósitos. Mesmo assim, e em quaisquer circunstâncias da vida, não nos envergonhemos jamais de sermos nós o que somos: acima de tudo, pessoas.

A vida voltou a sorrir na vila.

Nenhum comentário:

Postar um comentário