NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 18

Maciel Parente descansava em sua casa de Almeirim, quando uma mucama veio lhe avisar da visita de gente estranha. A pequena pipa de rum, feita de carvalho, presente do rei espanhol, já estava a menos da metade. Uma cunha a seu lado, fazia os afagos necessários para o chefe não se aborrecer. Jacareí apareceu junto com o capataz; Itanuchá a seu lado. O bebê já dormia no colo da índia, alheio aos problemas ocorridos semanas atrás. A expressão de expectativa diante do resultado da conversa, dominava a expressão do jovem Jacareí, afeito aos problemas que ocorreram com a sua esposa. O coronel português já sabia que o recém-chegado falava castelhano. Arrastando um pouco o espanhol, ele fez um sinal a Jacareí.
-- Aproxima-te, meu jovem forasteiro – chamou Bento.
-- Com licença, senhor – complementou Jacareí, se aproximando do coronel.
-- O que me trazes de novidade? – Ao mesmo instante, o capataz chamou Bento Maciel para um canto, e após 20 minutos de cochicho, o coronel fez uma expressão de tristeza, se dirigindo a Jacareí.
-- Estou muito triste com o que aconteceu a você e sua mulher, principalmente por saber que foram meus homens que o fizeram. Pelo menos, os autores já pagaram com a vida o mal que lhes causaram. Sei que essas coisas marcam muito a vida da gente. Qualquer pagamento que eu fizer a vocês, não paga um milésimo do que você e sua esposa sofreram.
De repente, o velho Bento pára. Olhar pensativo e fixo em Itanuchá. Aproxima-se da jovem, curva-se em reverência (o que era de praxe, na época, quando qualquer cavalheiro se aproximava de uma dama) e beija-lhe a mão. Aperta-a um pouco contra sua mão. Jacareí e Itanuchá vêem naquilo uma ternura singular de um homem dócil, já com a barba branca. Mas naquele momento não havia tempo de pensar sobre esta conduta do comandante que, e tendo naquela região todos os poderes a seu lado, não se poderia ter algum tipo de resistência. Paciência. Ele era o líder, e convinha acatar qualquer decisão sua ou qualquer outro procedimento seu.
-- Não sei o que você quer comigo. Não sei por que veio ao meu encontro, mas eu já decidi uma coisa: vou dar toda ajuda que vocês necessitarem, Jacareí. Vou te fazer uma proposta. Você quer trabalhar comigo? Não precisa me responder agora. Que tal 20 contos de patacões? Depois posso aumentar, de acordo com sua produção, fidelidade a mim e desempenho. Exijo obediência total.
-- Coronel Parente, não tenho outra alternativa senão aceitar a sua oferta. Acho que Itanuchá quer também. – e olhando para a jovem mestiça, ela assentiu – Diante disso, posso lhe assegurar que ficamos.
-- Muito bem – falou Maciel Parente, num tom conclusivo. – Assim é que se fala. – e olhando para uma das mucamas, fez sinal para que ela se aproximasse.
-- Jandira, pegue os pertences desta senhora e leve para a casa principal, juntamente com a sua menina.
-- Pois não, patrão – afirmou a Mucama.
Chamando um outro escravo, que estava perto da varanda, instruiu-lhe:
-- João, pegue os pertences do cavalheiro e leva para o quarto perto dos meus aposentos. Amanhã tem muito trabalho, e temos ainda muita coisa a fazer hoje...
-- Mas senhor, deixe pelo menos eu me despedir da minha mulher – lembrou Jacareí, assustado.
-- Ô meu cavalheiro, desculpe, ta? De repente eu me esqueci que vocês são uma família. Eu deixo vocês passarem a noite juntos, mas você tem que combinar com sua esposa que a partir de amanhã você vai ficar a semana toda no mato, porque temos de colher várias especiarias, e sua esposa não pode trabalhar com você. Aqui ela será bem tratada do bom e do melhor. Vou dar duas mucamas para cuidar dela o tempo todo. Está bom assim? – perguntou o coronel, agora mais dócil e com ar de compreensão.
-- Está bom, coronel. Eu é que lhe peço desculpas por esta exigência. É que eu gostaria de acertar algumas coisas com Itanuchá e passar esta noite junto com minha filha. Afinal de contas, como o senhor falou, vou ter que ficar uma semana sem ver eles. Obrigado por mais esta graça. Pode contar com a minha fidelidade.
-- Assim é que se fala, meu bom homem. Bom. Estamos entendidos. Jandira e Josélio, acompanhem esta família e coloque-os no melhor quarto da casa-mãe. Dêem a eles, hoje, tudo o que necessitarem.

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