NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 17

No calendário do homem branco, já se contava o ano de 1537. O espírito de Itaraê já tinha ascendido à Grande Ocara Celestial. Seu espectro agora repousa nas montanhas da além-vida. Abaixo do plano dos guerreiros, a vida recomeçava, como um dia que se vai, vem outra noite... e novamente um novo dia. Jurupari, detrás do junto de buriti, pensava numa outra peraltica que queria aprontar. Muitas luas se passaram para que, no lar de Hernan e Surini pudesse reinar alegria pela terceira vez.

-- Ivone, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo – pronunciou padre Hermínio, responsável pelas missões na pequena povoação de Santa Luzia de Tucuju. Ivone passou a ser a alegria do casal, diante da robustez de Manuel e Potira. Manuel agora estava com nove anos. Potira abeirava os cinco. O padre da vila começava a ensinar a Manuel as primeiras aulas de latim.

Jacareí, o quarto irmão de Hernan, havia se casado com Itanuchá, filha de Curapía. Aracém e Potoká também ficaram felizes com o nascimento de Solimón, seu oitavo filho. A cada tempo que passava, a língua espanhola começou a se proliferar na vila.
Em Portugal, ainda reinava d. João III. Os primeiros escravos vindos da África já começam a freqüentar Porto Seguro, na Bahia. A pesar da ameaça inglesa de piratas sob o comando de William Harkins, que poderia passar por estas paragens do Norte, o povo tucuju vivia feliz, alheio a tudo isso. Hernan, agora, tem 35 anos. Possui uma família bastante numerosa. Já plantou muitas tarefas de roça com a ajuda de alguns índios, seus amigos e parentes.

Manuel já imita o pai, e mesmo pequeno, incentiva os curumins na lavoura das raízes. O tucupi e a tapioca são secundados pelo caxiri. Há notícias leves sobre a presença dos Guaiapi
[1] na região do Jarí.

Amália agora tem 32 anos. A tarefa de ajudar os velhos e cuidar ao mesmo tempo do filho Moisés, é um pouco sacrificada. O coração da branca-espanholada de olhos azuis tem os mesmos sentimentos de uma tucuju. Itanhaê já havia advertido Anaatanha, a feiticeira, de não se aproximar da jovem. Iratu, das lindes celestiais, estava à espreita; por isso mandava mensageiros para protege-la. O vacilo do guerreiro, mesmo assim, permitiu praga de Jurupari, que inchou a barriga da moça, nascendo Moisés, que conforme predisse Itanhaê no passado – e já passamos por este trecho da história – estava predestinado a ser um grande líder. E o varão do ventre de Amália estava agora com 14 anos, ajudando a mãe nas tarefas mais difíceis.

-- Vovó, por que você está triste? – perguntou Moisés a Niranaê, que estava pensativa no seu trabalho doméstico.
-- Vovó não estar triste. Vovó preocupada com avanço dos homens do norte – explicou Niranaê a seu neto.
-- Se eles vierem, liquido todos eles. Pode deixar que eu resolvo. Não vê que sou um grande caçador de tapir? Já peguei tantas jaguatiricas e as pus para correr. Corto o inimigo ao meio. Há muitas luas, peguei um grande susto na suçuarana. O arco e o tacape, para mim, são bem-vindos. Meu avô me ensinou regra de homem branco. Que mais poderei temer, vovó?
-- Você valer mais que todos os caracuris dos Tucuju. Sua avó estar orgulhosa, mas o perigo que vem é muito mais forte que todas as forças das nossas tribos. Iratu estar zangado porque leis foram quebradas.

-- Que leis, vovó? – insistiu Moisés.
-- Você é muito jovem para entender. Estou esperando notícias de Jacareí, do encontro que terá com homem branco. Portanto, por favor, curumim... deixa um pouco a vovó com seus pensamentos.

O jovem guerreiro entendeu a “deixa” da vovó. Respeitou seu silêncio e se retirou. O homem branco de que Niranaê se referia, era Maciel Parente, um aventureiro que se instalou na região com seus homens. Tendo recebido o rei galego a doação de todas estas terras do Oiapoque até o Jarí, como recompensa aos trabalhos de expulsão de invasores estrangeiros, Parente estava tentando iniciar um processo de colonização. De vez em quando saía do governo da Província do Maranhão e Grão-Pará – posto este concedido pelo próprio rei – e executava inúmeras expedições, em parte aprisionando índios, e juntando especiarias para serem trocadas na Europa. Ele comandava uma turma dos mais violentos degredados portugueses; gente da mais ínfima espécie, que se avizinhava na região, em busca do metal precioso (o ouro). E para isso, estava disposto a sacrificar qualquer opositor.

Jacareí, após o nascimento de Rosa Helena, se deslocou com Itanuchá e a família em direção à região do Jarí. Descendo várias corredeiras, tinha um objetivo: encontrar-se com Maciel Parente. Tarefa difícil, mas não tão impossível, que dependia de muita paciência e energia. A fama de Maciel, e principalmente do filho, Maciel Filho, se estendia por toda a costa: escravocracia, abusos de poder, contrabando, corrupção etc. Muitos desses homens já haviam alcançado a outra margem do Grande Mar Dulce.
Pare aí, homem! – ouviu-se uma voz desconhecida. Jacareí, imediatamente, tentou se explicar ao dono da voz.
--Meu bom amigo, estou com minha mulher e meu bebê em busca de...

Um barulho ensurdecedor cortou a palavra do caboclo, seguido de um tapa no rosto, e um empurrão. Por um instante o tempo parou. Quando acordo do desmaio, Jacareí percebeu que estava amarrado num tronco. Uma súbita dor de cabeça começou a sentir, no instante em que acordara. Os olhos estavam vendados... só ouvira vozes de comando, sussurrantes, dos bandidos.
-- O que faremos com esta moça bonita? – perguntou um dos homens. Ao que o outro respondeu:
-- Não se avexe! Deixa primeiro eu resolver o que fazer com esse aqui. Sabe que ele dará um bom presunto?

A expressão “com esta moça bonita” veio logo significar alguma coisa par ao jovem Jacareí, mesmo com o sotaque carregado de uma língua estranha, mas um pouco parecida com a de seu pai. Eram portugueses. Seu primeiro pensamento: Itanuchá e Rosa Helena. Ai! Que dor aguda na cabeça! Uma vontade imensa de falar. Quando tentou, percebeu que seus gritos estavam sendo abafados por uma mordaça. Remexeu-se todo, urrou, sacudiu, mas a resposta foi outro soco, desta vez no estômago, seguido de outro, mais outro.

-- Te acomoda aí, homem, senão tu vai ver tua mulher servindo nós todos, e depois vai apanhar pra valer!

Jacareí reuniu novamente toda força que tinha, mas a reação do bandido novamente foi rápida. Desta vez, dois chutes na região escrotal do pobre caboclo. Ele estava desesperado! Pensava a todo instante em Itanuchá e na menina. Nada mais lhe importava, a não ser as duas pérolas preciosas que carregava, já que a outra ficou com a avó. Poderia até mesmo morrer. Não importava. Não importava? Como? Ora, se morresse, Itanuchá estaria em perigo maior. Por isso mesmo, tentou se acalmar. Mas os gritos de Itanuchá começaram a varar o silêncio.

-- Não precisa gritar, mocinha! É só ficar caladinha que vai dar tudo certo. Nós somos muito bonzinhos, não é, Gonzáles?
-- Por favor, em nome de Deus, deixem meu marido em paz! – implorava a jovem esposa, abraçada à filha de um ano.

Gonzáles fitou a jovem chorando. Mas sua consciência e sua crença em Deus já haviam sido comidos com farinha. Fez um sinal para Antonio, que a agarrou por trás, ocasião em que Gonzáles pegou o bebê do colo da mestiça, e o colocou num canto a esmo, protegido por uma árvore. A criança gritava, porém, os gritos da mãe eram maiores ainda.

-- Não matem meu marido! Não matem minha criança! Eu vou fazer tudo o que vocês quiserem mas, por favor, não matem eles., Tenham piedade.

-- Hum! Finalmente você vai colaborar conosco, não é sua putinha desgraçada? Vou tirar minha roupa e você vai ter que acariciar bem gostoso algo aqui que vai te servir, tá meu amor? Vem cá, sua vaca vadia! Tu não tens mais um homem. Tu nos pertence agora. Tu vai dar para todos os homens dessa região, sua filha da puta! Nós temos esta coisa gostosa só para ti, e tu vai ter que provar toda ela, e é agora. Tu vai provar e já!

Os gritos pararam. Gonzáles e seu companheiro já estavam despidos, mostrando o volume de suas virilidades.

Já desmaiada e sem força, a garganta de Itanuchá ardia, de tanto gritar. Após algum tempo recobrou os sentidos. Percebeu que estava despida. Os seios estavam de fora, doloridos, acariciados pela brisa do vento. Seu corpo branco e bonito, exposto à selvageria dos homens, não tinha encontrado resistência. Um gemido pequeno, misturado com prazer do estrangeiro, eram os murmúrios do momento. Gonzáles a segurava pelos braços, tentando roubar-lhes mais beijos furtivos, enquanto Antonio já havia penetrado seu instrumento de prazer na jovem. No momento em que Antonio penetrava e fazia o vai-vem, Gonzáles passou a mordiscar os mamilos da índia. Assim, a jovem percebeu suas partes invadidas pelo furor desconhecido do membro do macho desconhecido. Até então havia experimentado somente o prazer do marido.

A carne doía toda, dilacerada pela volúpia da penetração inoportuna e forçada. O sexo, nem tanto lubrificado, tampouco descontraído, estava sendo invadido invo9luntariamente... revelando, assim, sua privacidade. Mas os homens tiveram que parar rapidamente, com a voz grossa do capataz que chegava neste momento.

-- Que estão fazendo aí, seus vermes? – perguntou o homem, meio aturdido com o espetáculo bizarro e de instintiva crueldade.

-- Olhe, senhor... que mulher gostosa! Apenas começamos o banquete! Só estamos treinando. Não quer participar, chefe! – tentou Gonzáles agradar o capataz que tinha chegado neste instante. A voz do chefe foi mais grossa, e a reação, mais imediata.

-- Seus malditos! Será que não percebem que esta mulher é comprometida? Por que este homem está amarrado? E esta criança?...

-- Mas capitão, nós só queríamos nos divertir um pouco e...
-- Cale a boca, seu imprestável! – interrompeu bruscamente o capataz. – Você merece é isto! – imediatamente o capataz postou um punhal em punho, e aplicou um golpe certeiro no coração de Gonzáles.

Antonio ia vingar o companheiro, mas a segunda estocada desferida por um dos peões que acompanhava o capataz foi mais forte. Os dois estavam liquidados. Em seguida, o líder providenciou uma roupa longa, que cobriu o corpo desnudo de Itanucha, aterrorizada com tudo o que passou. Mal podia fitar os homens ali, envergonhada. Gritou pelo nome de Jacareí, mas o capitão lhe asseguro9u que ele estava sendo medicado e passava bem. Pensou na sua filha, mas ela já estava nas mãos de um dos peões e em segurança. Imediatamente o bebê foi dado à mãe.

No mesmo instante Jacareí acorda. Percebeu um facão ali perto. Tomou-o de ímpeto, e se colocou em posição de combate, enfrentando a quem ousasse se aproximar. O capitão foi bem mais calmo, entendendo a posição do marido, falando com brandura:

--Calma, meu senhor. Somos amigos! Não vamos fazer mal algum a vocês. Os homens que boliram com sua mulher já estão mortos. Estão tudo bem agora. Você fala espanhol?

A expressão “não vamos fazer mal algum a vocês” já tinha ouvido antes. Não sabia, portanto, o que fazer. O capataz, pacientemente, lhe dirigiu a palavra:

-- Senhor, eu sou o capataz e capitão, responsável por estes homens. Estes dois homens que molestaram sua esposa já pagaram com suas vidas! Meu patrão é governador dessa região. Ele vai ajudar a vocês no que puder, para reparar esse mau causado por gente nossa. Isto eu prometo!

-- Quem é seu patrão? – perguntou Jacareí, agora mais calmo, e junto da mulher e da filha.

--Meu patrão é o senhor Coronel Bento Maciel Parente.
Um suspiro de alívio... e Jacareí falou mais aliviado:

-- Que Deus seja juíz e testemunha. Eu já estava há muitos dias procurando contato com o Coronel Parente. Eu e minha esposa estávamos vindo de longe, transportados por montaria, andando a pés por várias léguas, para falar com o coronel Parente! Meu povo sofre muitas perseguições por parte dos piratas que de vez em quando aparecem para molestar! Desejaríamos conversar com o coronel Parente. Por favor, nos ajude, captião. É tudo o que queremos!

Vendo a fragilidade do corpo de Jacareí, e o sofrimento de Itanuchá, vítima de estupro animalesco dos seus homens, o capitão se dirigiu a Jacareí:
-- O senhor e sua família agora vão descansar. Precisam de cuidados. Passarão a noite em minha casa. Vou lhes adiantar que é muito difícil falar com o coronel, mas não é de todo impossível. Vamos!. Pegue sua esposa e a menina, e suba na carroça.

O capataz deu ordens aos homens que o acompanhavam,
para prestarem toda a ajuda necessária durante a viagem. Depois de dois dias e duas noites, chegaram a uma fazenda, e alguns escravos prontamente se ofereceram para ajudar. Uma mucama cuidou logo dos ferimentos de Itanuchá. Após os banhos e o sono merecido, ela adormeceu, mas de repente vieram, em sonhos, aqueles visões dos dois homens lhe violentando a privacidade. Mas Itanuchá resistia, e ao acordar, vislumbrou o marido a seu lado, e a nenê, perto dela, que estava pegando um bom sono. Rosa Helena já estava dormindo. Daqui a pouco, Coaracy aparecerá, anunciando mais um dia, já nas cercanias do Jarí.


[1] É dos Guaiapi que se formarão os Waiapi, ou Wajapi, que se fixarão na região do Amapari e no Oiapoque. São, a exemplo dos Tucuju, de língua tupi.

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