NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 16

Já se haviam cumprido seis luas após o encontro de Aracém com Potoká. Quase todas as noites, após a despedia de Coaracy, que dava passagem para o brilho de Jacy, os dois passaram a tornar freqüentes os seus encontros amorosos. O velho Itanhaê já havia advertido o rapaz do perigo que corria:
-- Jurupari esperto, filho. Jurupari manda curupira e papinguari em forma de bicho invisível. Bicho entra no índio... índio faz desejar mulher virgem. Cuidado! Jurupari esperto!
-- Tio Itanhaê, queria falar com o senhor.
-- E não está falando comigo, ó filho de Iratu?
-- Sim. Mas queria que o senhor me escutasse.
Apesar de cheio de tarefas, o velho feiticeiro percebeu que Aracém tinha problemas. Resolveu dar-lhe a atenção solicitada pelo sobrinho.
-- Não venha me dizer que você já aprontou alguma traquinagem por aí e quer que eu lhe perdoe.
-- Não, tio. Não se trata disso. Meu caso é sério e não é só meu. – explicou, apreensivo, o sobrinho.
-- E há outro envolvido nisso?
-- Sim, mas não é ele. É ela.
-- Hum! Isto não está me cheirando bem. – exclamou o pajé, fazendo uma pausa e pitando três vezes o seu cachimbo de turé. Após longas tragadas, continuou:
-- Me diga, por favor, Aracém, por que você engravidou Potoká?
E o sobrinho, todo surpreso, devolveu a pergunta com uma outra.
-- Como é que o senhor sabe?
E o velho feiticeiro, filosófico e enigmático:
-- Eu não sei de nada. Você é que está me contando agora!
Aracém percebeu que ninguém enganava o velho sábio da vila. Depois de mais quatro pitadas no seu cachimbo, Itanhaê mirou demoradamente o jovem, por alguns instantes, sem dizer absolutamente nada. Então Aracém resolveu quebrar o silêncio momentâneo, pergunando:
-- O que eu devo fazer, senhor?
-- Nada, meu filho. Você já fez tudo. – e continuou: -- Você apressou a realização daquilo que iria ser feito sob as bênçãos de Iratu. Todas as virgens tucuju pertencem a Iratu. Ele já havia destinado Potoká a você, mas você teria que jurar, perante ele, fidelidade eterna. Paciência! Vou consultar os espíritos da floresta para saber como o Grande Guerreiro Celestial está encarando isso! Enquanto isso, o que você deve fazer agora é assumir esta situação. Fale com os pais de Potoká, mas antes converse com seu pai. Você tem que estar sujeito a tudo isso! Sujeite-se às penas que eles lhe impuserem. Faz parte de seu aprendizado. Não fique muito preocupado, meu filho! Pelo menos você mostrou um pouco de sua virilidade, e colocou para fora aquilo que estava sentindo. É melhor a gente colocar todos os nossos demônios para fora, do que ficar preso a eles.

*** *** ***
Algumas luas bastaram para que os dois passassem a conviver oficialmente. Na região tucuju o casamento era cerimônia simples. Os noivos, agora marido e mulher, e abençoados por Hernandez, passam a conviver.
Mário agora vai ter mais netos, mas isso não o estava preocupando tanto.
-- O que me preocupa Nira, é a teimosia de Hernan e Surini, com essa mania de querer viajar... com essa tal viagem que inventaram. – desabafava Mário com sua querida mulher.
-- Mas eles têm que cuidar das coisas deles, Mário. Hernan, já com 30 anos, já é um homem formado. Não há problemas. A vida é assim mesmo. Além do mais...
-- É.. mas Hernan precisa aprender mais coisas da vida...
-- Pára com isso, Mário. Sou mãe, e a mágoa faz parte. Saudade será caminho a acompanhar dor. Tristeza vem, mas Hernan também tem sua vida a trilhar. Meus 49 anos de vida já me dão condições de ver que saudade será inevitável... mas separação tem que acontecer.
Foram inúmeras as tentativas de Mário frente aos apartes de Niranaê. A fortaleza e a maturidade da mulher de fibra, herança do pai Itaraê, fazem de Niranaê uma mulher de personalidade forte. E o robusto galego reconhece esse valor cristalino que a sua guerreira tem. Novamente a força e a persistência da mulher vencem o embate.
Hernan e Surini partem, com seus filhos Manoel e Potira, para parto do rio Jarí, onde também alguns ancestrais dos Tucuju partiram, mas não deram retorno. A margem direita do Mar Dulce oferecia uma forte defesa.
Pelo calendário do homem branco, já estamos abeirando o ano de 1536. A nação tucuju vive o maior drama de sua história. O velho cacique Itaraê está definhando. Seus noventa e nove anos de vida na selva já o fazem esperar a morte.
Aliás, o velho pajé já havia predito sua morte:
“Pássaros do céu trarão aviso de Iratu. Daqui a cinco luas, tristeza virá ao mundo dos vivos. Nosso cacique terreno terá descanso para poder continuar luta terra dos pássaros de caracuri”.
Itaraê, no fundo, sabia que seus dias teriam que acabar na aldeia de seus pais, que agora é vila. Após as refeições, o velho cacique se postou na rede atada à ocara central. Itaraê sentiu uma dor aguda dilacerar o coração e o estômago, mas não queria alarme. Como um grande chefe, não poderia transparecer aos demais o quanto sofria. Mas sofria muito. Niranaê, mesmo com dificuldades físicas devido a falta de uma perna, procurava consolar o velho pai e assisti-lo em seus últimos momentos. O velho cacique procurava se sentir mais forte diante da vulnerabilidade da filha.
-- Filha minha, não fique triste. Seu pai terá que fazer viagem mundo dos mortos. Iratu esperando, pede que me apresse. Quero que você não fique triste. Brevemente iremos nos ver. Já vi meus netos e bisnetos. Mário é filho e marido bom. Tenho certeza Mário será pais e avô bom. Não chore, fique alegre, pois pai Itaraê parte feliz; não deixa filha só. Mário ajudará filha de Itaraê e povo feliz por ajuda.
Os cinqüenta e um anos de Niranaê não foram suficientes para que a índia não derramasse lágrimas. Queria falar mas não conseguia. Estava comovida demais. Nesse instante aparece Mário, que já havia percebido a situação. Também o desespero tomou conta do castelhano, que começou a implorar, aos rogos e gritos, pela vida do velho.
-- Por favor, meu pai... não vá! Já me distanciei de outro pai longe daqui. De repente você também me abandona...
-- Impossível eu não ir, filho. A vida aqui nesta terra tem começo e fim. Isso não depende de Itaraê. Já sinto últimos sinais de vida. Percebo que pássaro branco já está à minha procura. Cuide bem de Niranaê e meus netos. Iratu confia que haverá mudanças. Homens do norte se aproximam, e Jurupari procura confundir morte com vida, ilusão com verdade. Sei que luar tucuju não será mais tucuju; mas vida será mais vida. A você, Mário, está a responsabilidade de conduzir a grande nação. Dias serão mais dias. Você e Niranaê serão os continuadores desta Nação que atravessou tempo. Uma felicidade minha foi ter conduzido geração de Niranaê até aqui. Tristeza não ter eu me defrontado com os homens do norte, para que Iratu ficasse mais feliz. Mas Iratu já comunicou a Tupã e o Grande Guerreiro do Céu veio avisar Itanhaê que missão de Itaraê foi cumprida.
-- E quem será agora o nosso líder, pai? – esbravejou Niranaê, num grito de desespero.
O velho guerreiro, num último suspiro, conseguiu balbuciar:
-- Mário será o líder...
A guariba começou a gritar. A rasga mortalha havia passado. A jaguatirica e a suçuarana também fizeram barulho diferente. As cinzas da fogueira da noite passada ainda crepitavam acordando os primeiros suspiros do sol matutino. Itaraê ficou junto à palmeira de bacaba que Maria havia plantado. A presença de uma cruz fincada á terra lembrava que ali, exatamente ali, estava o corpo de um grande guerreiro. A cruz foi uma última homenagem do bravo castelhano, que passou a perceber que sobre seus ombros pesava uma grande responsabilidade a partir de agora.
Todos os oitocentos e cinqüenta nativos tucuju não ousavam pronunciar mais o nome do grande guerreiro, pelo menos por um bom período, pois o espírito de Itaraê ainda se fazia presente na vila, e só alçará vôo após a autorização definitiva de Tupã.

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