NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 15

Ao cair da noite, o jovem caçula de Hernandez, Aracém, já com 18 anos, começa a se interessar pela agradável companhia de Potoká, dois anos mais nova que ele. Há muito tempo que as velhas cunhãs os vêem juntos.

-- Isto vai dar casamento – mexericava Janubá, na tenda da esposa de Malakuya, grande guerreiro tucuju. Os jovens, sabendo que estavam sendo alvo das fofocas, não ligavam. Iam casar mesmo, pois já estavam comprometidos desde criança. É costume entre os tucuju o casamento “encomendado”. A cunhatã, desde quando nasce, já tem seu escolhido, e esse costume nada delustra a aventura e a espontaneidade dos dois, Potoká já havia saído da clausura, lugar onde passou 20 luas, desde os 14, após a vinda do primeiro fluxo menstrual.

-- Você quer ser mesmo minha mulher de verdade, Potoká? – perguntou, com bastante ternura, Aracém à índia.

-- Sim. Potoká quer ser de Aracém. Potoca gosta muito de Aracém. Por que pergunta? Desconfiança motivo tem?

Aracém não estava brincando. Gostava mesmo de Potoká, mas queria ter a certeza de que seus sentimentos estavam sendo correspondidos.

-- Gosto de você, minha querida Potokák. Vamos nos casar. Acho você uma gracinha, sabia?

-- Potoká assustada. Potoká faz Aracém rir? – perguntou, surpresa, e intrigada, a índia.

-- Não, meu amor. Quando digo que você é uma gracinha, quero dizer que você é bonita, alegre e singela. – explicou Aracém.


-- Potoká não compreender “singela”.
-- Deixa pra lá, meu bem. Deixa pra lá!

Aracém passa a olhar fixamente para o seio entumescido de Potoká, encoberto por um tecido de algodão, feito em teares da Europa, presentado pelo capitão Diaz de Sólis a várias índias, em sua ultima viagem a Santa Luzia. A índia começa a se perturbar com o olhar fixo de Aracém, notando mais brilho nos seus olhos, e vermelhidão no seu olhar.

-- Por que me olhas assim? Potoká está preocupada com esse seu olhar, Aracém. Me explica por favor... por que me olha assim? Eu quero uma ex.....
Aracém não respondeu. Imediatamente pegou a índia pelo braço, tocou no seu seio. Potoká não sabia o que dizer, pois não era comum a um índio esses atos de sedução. Mas estava envolvida emocionalmente, e aquela pele do seu amado era atraente também. Se era jogo de Jurupari, paciência! Resistência tem limites. Nos confrontos da vida, existem os altos e baixos da vitória. Vencer não significa somente envolver. Derrotas nem sempre significam o ato de ceder.

-- Potoká tem medo. Aracém, mediz, por favor o que está acon....
Novamente Aracém avançou em suas intimidades. O suspiro morreu. O silêncio reinou. A jaguatirica, ao longe, observava o casal. O fogo já estava prestes a se extinguir na ocara principal da vila. Um velho pajé foi realimenta-lo com a lenha retida para tal. Potoká se refez do espetáculo de Eros. Não estava mais revoltada com Aracém, porque aquilo que ele fez, introduzindo alguma coisa nas entranhas da índia, era gostoso e prazeroso. Na realidade, ela não sabia o que dizer. Esta foi a sua primeira experiência, que a fez mulher. Os longos anos de amizade com o rapaz deram crédito e motivo para as suas intimidade. Afinal de contas, eles se criaram juntos. Os conselhos de seu velho pai sobre as artimanhas do branco.... branco? Mas Aracém não era branco. Ou era? Bem; tinha sangue de branco.

Ah! Deixa pra lá a confusão. A vida recomeça logo, logo. O negócio, agora, era dormir e recordar os momentos com Aracém. A mãe já estava gritando pelo seu nome.

Aracém chegou cabisbaixo à casa do pai. Os velhos estavam já ressonando. Coracy já pensavam em aparecer, e os primeiros raios já insistiam em penetrar a pequena vila.

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