NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capitulo 14

“Em nome dos reis de Castela, neste dia 2 de maio do ano cristão de 1536, dou por fundada esta pequena povoação, fruto de nosso trabalho, cujo nome, Santa Luzia, ficará gravado perpetuamente na memória daqueles que nos sucederão; ao longo deste rio Pacuí, para lembrar o quanto a jovem Luzia nos era cara...”

Este foi um pequeno trecho introdutório que saiu das palavras Mário Hernandez, já com 50 anos de idade, por ocasião de fundação da pequena comunidade de Santa Luzia. Niranaê o acompanhou, juntamente com duas cunhas. Todos da povoação aprovaram as palavras do espanhol. Dez casas, feitas de toras de macacaúba, e bem caprichadas, mostravam o zelo e o perfeccionismo de Mário.

O formato dessas casas lembravam-lhe, de repente, aquelas cabanas dos verdes campos do Porto, região portuguesa por onde passou, antes de partir da Galícia. Foi lá que vira, pela primeira vez, os camponeses fabricarem o vinho português. Seu pensamento, de repente, passa vislumbrar Alfama, e nas andanças entre as vilas de Cintra e Colares, locais em que o prior dos beneditinos, há quarenta anos através, em Castela, havia narrado a Mário sobre os procedimentos para o fabrico do vinho. Hoje, ele sabe que os ‘soldados’ da Companhia de Jesus, diferentes dos contemplativos de São Bento, estavam chegando para modificar a vida do gentio, sob a limalha do poder. Serão esses os homens do norte tão temidos e falados nas profecias de Ibanatu?

Mário resolveu batizar toda a família: mulher, filhos e netos cristãos, conservando-lhes os nomes primitivos. Foi um ano festivo, pois nasceu-lhe mais uma rainha: Potira, que na língua tupi quer dizer ‘flor’, filha de Hernan e Surini, primogênita do casal. A coruja cantou três vezes no mesmo dia, dia, mas não chegou a espantar, com sua rasga mortalha, o acontecimento festivo. Acutipuru
[1] pulava, subia e descia mais veloz ainda.


Moisés, filho de Amália, está com seis anos já. Sua mãe ainda é jovem: 24 anos. Moisés é para Amália a sua pérola preferida. Fora ele o fruto de sua primeira – apesar de inoportuna – experiência como mulher. Moisés é exímio nadador, e tem um ciúme exagerado da mãe.

Mário está feliz aos 52 anos, e novo. Já divide seu tempo com netos. De repente ouve de um de seus netos uma noticia diferente:

-- Vô... vô... tem três homens da sua cor desembarcando na terra do igarapé.

-- Vamos ver o que é isso – falou Mário, olhando para o menino, mas com experessão de preocupação e susto. – Fique aqui e a ise sua mãe que vou averiguar o que esta acontecendo. Pode ser importante. Avise a vovó também.

Perto da margem, avistou duas naus de galegos. Já no igarapé, pequenas canoas, mas com um grande contingente de marinheiros. Um homem robusto vem em direção a Hernandez, talvez intrigado pela sua cor branca.

-- O senhor fala espanhol? – perguntou o estrangeiro, ao que Hernan respondeu:

-- Falo espanhol, da região da Galícia. E o senhor, de onde vem? O que faz por estas paragens? – perguntou Mário, que já estava acompanhado de mais de trezentos guerreiros tucuju. O enorme contingente de índios, formado em pouco tempo, assustou o comandante estrangeiro, que imediatamente falou:

-- Calma, amigo! Não se preocupe conosco. Estamos apenas verificando um problema em uma de nossas naus. O fundo da nau principal está cheio de água salgada, que por acidente se misturou à água doce que trazíamos de reserva, atingindo algumas mercadorias nossas. Agora temos de desembarcar nossas especiarias para não ficarem encharcadas de água. Gostaríamos que você nos deixassem desembarcá-las, para secar um pouco ao sol. Estamos rumando para Feliz Lusitânia.
[2]

Mário ficou mais aliviado. Travaram eles uma longa conversa e, em seguida, o galego o autorizou a desembarcar a bagagem avariada do navio e a estada deles, até que a nau fosse reparada.

-- Responda-me, amigo: como foi que o senhor veio parar nessas bandas de nossas longes Espanhas?
[3]

Mário pediu que o galego pernoitasse em sua casa, e passou a contar toda a sua história, desde o inicio, quando fazia parte da nau de Pinzón, até agora. Niranaê foi apresentada. A noite foi festiva porque o comandante, mais conhecido por Dom Miguelito, trouxe da nau muito rum e vinho. Entre os relatos, Miguelito contou as últimas novidades de Castela, e do movimento no norte da Capitania do Maranhão.

-- Fique sabendo que chegarão monges carmelitas e frades capuchinhos por aqui. Não demorarão muito a aparecer – falou dom Miguelito, iniciando uma longa conversa.

-- O senhor acha que eles virão por aqui, dom Miguelito? – perguntou, curioso, Hernandez, com um ar de preocupação.

-- Não só acho, como também acredito que já estão a caminho. Mas deixe essa preocupação para quando acontecer, homem. Afinal de contas, são “homens de Deus” que vêm trazendo coisas novas para essa paragens. – e dirigindo-se a um dos comandados: -- Ô Sancho, traga mais rum, homem. Nossos amigos parecem estar satisfeitos com a nossa presença, não é, Mário?

-- É, amigo! Posso lhe assegurar que já faz bastante tempo que não vejo um europeu por essas bandas.

-- Mas o senhor deve dar graças a Deus pela família que tem: uma esposa bonita, produto da terra... filhos robustos. Ô, amigo... quando eu sair daqui ou sentir muitas saudades desse calor humano e familiar que você e sua família estão nos proporcionando.

Mário escutava o estrangeiro com bastante atenção, e cada vez mais lembrava-se do período de adolescência vivido nos subúrbios das vilas galegas. Não podia, de fato, se queixar de estar em outras plagas, com família constituída. A noite se foi pelas entrelinhas do tempo. Já era madrugada, e o silêncio só não foi completo por causa dos roncos do capitão Miguelito e sua tripulação. Mas Hernandez não consentiu dormir, até mesmo porque aquele gente era estranha, e tinha experiência da esperteza dos europeus.

O dia finalmente amanhecera, e os homens do navio começaram a trabalhar nos reparos. Os tucuju ajudavam-nos no possível, e um pouco curiosos com tanta criatividade do homem branco. No meio-dia, três antas, cinco capivaras e três tatus foram servidos e os marinheiros já estavam preparados para a partida, no período da tarde. Alertados pelo chefe Itaraê dos perigos da mata à noite, resolveram partir somente no dia seguinte, mas dessa vez teriam que dormir mais cedo, e em seus navios.

Dia seguinte, a nau parte, e a vida volta à normalidade na pequena Santa Luzia do Tucuju.


[1] Pode ser conhecido também pelo nome Quatipuru.
[2] Feliz Lusitânia é a nomenclatura oficial da futura cidade de Belém, no Pará. Àquela época não passava de um pequeno povoado.
[3] Era costume, naquelas épocas, pluralizar o nome das nações. Assim temos a expressão “As Índias”.

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