NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 13

Manhã de 1522. Não uma manhã diferente, mas uma manhã com pressentimentos pesados. As corredeiras do igarapé do norte estão um pouco calmas, e ao longe Tuc-Humac, ele começa a vomitar Coaraci de dentro de sua garganta central e profunda. O porco-do-mato sai de seu esconderijo em bando, à procura de caça. É preciso ter cuidado com as suçuaranas que andam em volta também à procura de caça.

Os felinos não viram os pequeninos selvagens que passavam à distância curta, pois os ventos do norte desviaram o aroma de seu faro. Mas perceberam, entretanto, a silhueta da jovem e distraída Luzia, que fazia brilhar seu corpo púbere de 16 anos ao sol equatorial oiapoquino. A fome era mais proeminente e instintiva nos felinos que o espetáculo virginal da beleza escultural de Luzia.

Alguns índios perceberam, ao longe, os gritos da jovem, misturados com os berros dos animais, ao todo, seis. Apressadamente, os parentes de Luzia procuravam ver de onde vinham esses gritos. Instantes depois, depararam eles com o quadro macabro: a menina Luzia já não era mais índia. Já não era mais cunha. Já não era mais vida. As suçuaranas acabaram de devorar grande parte de seus troncos delgados, após o golpe certeiro em seu pescoço para parar a vida. As vísceras já estavam expostas. Bastaram três lanças mortais, desferidas por Caubi e dois companheiros, para que três felinos caíssem mortos, e o resto se embrenhou floresta adentro.

Mário e Niranaê souberam logo do acontecido. Parte que restou do corpo da jovem foi depositada num vaso de cerâmica. Uma lua inteira foi o período de luto que a aldeia acompanhou. Luzia era querida por todos. A lei da sobrevivência, numa natureza selvagem, é a constante, e os tucujus entendem que sobreviver é preciso, principalmente para qualquer morador da floresta, seja índio, seja animal selvagem. A velha Mitikó, que ajudava na festa fúnebre da despedida de Luzia, recolheu-se em sua oca solitária de repente, silenciando até o último fôlego, até que Jurupari mandasse buscar-lhe, também para merecido descanso. Morreu Mitikó em silêncio. Luzia teve morte aterrorizante, mas a vida continua, e é preciso sempre que se construa e se reconstrua a história, pois as mudanças são elementos necessários para que tudo evolua.

O ano de 1526 marca o inicio da segunda expedição do português Cristóvão Jacques, que tinha como finalidade a defesa da costa brasileira; mas os tucujus ainda podem respirar ares de liberdade e paz, e isso é o que importa, por enquanto.

A aldeia toma novo colorido, três anos após o trágico acontecimento da morte de Luzia. Nasce Manuel, filho de Hernan e Surini, após três sucessivos abortos. Hernan tem agora 25 anos, e percebe que a família vai aumentar. A caça está boa; a pesca ainda é abundante.

O jovem Jacareí já passou da puberdade. Seus 16 anos já dão para perceber que Itanuchá, sua amiga de infância, tem algo a mais do que a percepção exterior, que lhe queima por dentro, mas uma queimadura que dá prazer. Cupido não gosta só dos romanos e gregos. Ele gosta também do índi8o, e apronta-lhe, também, de vez em quando, peripécias. Parece que Itanuchá e Jacareí foram flechados. O irmão Imurá já havia dito a Itanuchá, das pretensões de Jacareí, mas a índia não acreditava, baseada no fato de que, caso isso viesse a acontecer, seria avisada pela mãe. Mesmo assim, procurou “instaurar” um “inquérito” com Jacareí.

-- Imurá me falou que você gosta de mim. – começou a índia a interrogar Jacareí.

-- Sim, Ita... gosto muito de você. – respondeu Jacareí.

-- Gosta porque é amigo meu e...

-- Não... é gostar mais profundo... – interrompeu o índio.

-- Como?

-- Gosto de você como papai gosta da mamãe...

-- Não fale assim, senão vou contar para Imurá.

-- Ora, ora... não foi Imura´que lhe contou que eu gosto de você?

A índia tentou contra-argumentar, mas também já começava a ceder. Muito confusa, sentiu vontade de fugir dali. Aliás, não sabia o que fazer. Resolveu silenciar. Não disse nada, mas pressentia que Jacareí estava certo. Já havia sentido algo diferente, ao ver o corpo de Jacareí tomando banho... sensação mais diferente no coro dele, que no do irmão. Itanuchá já havia sido advertida pelas velhas cunhatãs da aldeia. Mitikó havia avisado que índio cresce junto com índia, mas chega a certa altura da vida, que índia tem que ser confinada para receber instruções sobre a vida adulta. Por outro lado, seu pai havia lhe advertido que quando chegasse a hora ela saberia quem seria seu marido, e esse dia – pressentia – estava muito perto de acontecer. Só faltava agora torcer para que Jacareí fosse o seu prometido.

-- Eu sou seu futuro marido – sussurrou Jacareí ao ouvido de Itanuchá.

-- É... eu queria que fosse mesmo. – também sussurrou a índia.

De repente, uma outra voz cortou o pensamento dos dois, de inopino.

-- Sim, filha minha... Jacareí é seu homem. – A voz é do pai da índia, que se aproximava.

-- ???

-- Sim – novamente falou o pai de Itanuchá. – Jacareí é quem havíamos prometido para você. Acordo foi feito desde o inicio com nosso irmão Mário Hernandez, desde quando Jacareí nasceu. Jacareí é bom guerreiro, bom índio e caçador. Por isso mesmo, Jacareí é bom marido para filha minha. Mamãe sua concorda. Eu concordo. Jacareí quer. Basta que você concorde.

-- Oh, papai... – sussurrou Itanuchá, começando a chorar de emoção.

-- Não chore, coração da floresta! – aconselhou o velho guerreiro, unindo a mão de Jacareí à de Itanuchá. – Receba esse guerreiro como seu marido, seu homem, aquele que vai lhe ajudar a construir uma família, e que de vocês nasçam bons guerreiros e mulheres férteis, para que possamos continuar a nossa nação.—vaticinou o guerreiro.

Jacareí percebeu que ali era a hora imprópria de dizer qualquer coisa. Afastou-se aos poucos, compreendendo que sua felicidade estava chegando, mas havia necessidade de um diálogo muito intimo entre o pai e a filha.

Depois de algumas luas, se ouviu o batuque das caixas. Isto confirmava que mais uma festividade haveria de se realizar ali, na nação tucuju, sob as ocaras dos senhores da floresta... sob a proteção de Iratu.

Mas Jurupari sorriu de soslaio. O que estava pensando, nas suas divagações perigosas? A força de Tupã, porém, é mais forte. Não é páreo para esse anhangá. Certeza era tida! Amor era mesmo forte! Vida era clara. Destino havia sido traçado, e tudo teria que ser cumprido. Tupã resolveu relatar a Iratu todas estas investidas, e procurou consentimento com Ianejá, também divindade dos falantes da língua tupi, e assim, o Conselho das Florestas Celestiais sentenciou e tudo se deu por satisfeito. Mas ainda não era chegado o tempo em que os homens do Norte haveriam de aparecer. Muitas pororocas iriam rolar ainda.

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