NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 12

Os vinte anos de Hernan foram, para Mário, muito significativos. Filho mais velho, era a copia perfeita do antes jovem Mario. Puxa! Ele fica a imaginar que vinte longos anos se passaram, desde que chegou a estas terras. Salvo pelo velho Itanhaê, a quem agora chama de pai, conhecera Nira, e hoje está com cinco filhos e tão jovem ainda. Hernan é o primogênito. O casamento com sua prima Surini se aproxima, e falta apenas uma lua para tal.

Surini é um encanto de menina. Jovem ainda, conhecera Hernan nas quebradas da cachoeira, em tempos de criança. Cresceram juntos, enfrentaram algumas pororocas e, juntos, prometeram, num jogo de amor, a serem fiéis um para o outro. Agora, após dezenas e dezenas de lutas, eles estão prontos para experimentar um ano de trabalhos árduos pela frente, pois é costume que, após o casamento, o noivo vá trabalhar doze luas (um ano, na contagem do homem branco) de graça na casa dos pais da noiva, e a noiva fique reclusa na taba, com os pais do noivo; e lá, com a futura sogra, passa a aprender todas as experiências que uma futura mãe deve experimentar, desde os cuidados de parto até o crescimento da criança. Na aldeia não existe índia parteira. Todo o serviço é executado pela própria índia que vai ser mãe. Isto faz parte do código de Iratu.

Em seus sonhos, Surini também desejou pertencer a Hernan, que tinha por ela predileção imensa. É claro que as brigas eram freqüentes, mas tudo isso serviu para refrear os abusos que os dois cometiam.

-- Surini, você já foi falar com pai Mário a respeito da dança?

-- Já, querido – respondeu a moça. Esse tom carinhoso de falar deixou Hernan um pouco preocupado. Ele pressentiu que a índia ficou também pensativa, ao que interrogou.

-- Que tens, filha de Deus? Por que este tratamento tão carinhoso? Você nunca foi tão carinhosa assim comigo?

-- Nada, Hernan. Desculpe-me. Me escapuliu.

-- Algum motivo particular que seu novo não possa saber, querida princesa?

-- Oh, não! Não se trata disso! Não tenho segredos com meu futuro marido.

-- Então, minha “flor-do-campo”, conta pro teu amor o que está te atormentando! Talvez eu possa te ajudar.

-- Oh, não penses coisa ruim. Está tudo bem comigo. Apenas estou preocupada com Amália. Ela contou-me algo muito grave.

-- Então por que não contas a mim? Eu sou o irmão mais velho dela! O que a mana tem? – Hernan começou a ficar preocupado... – Anda, Surini. O que tem a mana?

-- Hernan, com você exaltado desse jeito, é claro que não vou contar.

-- Então vou perguntar a ela...

-- Você não vai! – interrompeu, bruscamente, Surini. – Ela me contou um segredo, e com certeza ela vai saber que eu revelei a você.

-- Eu vou...

-- Não vai, já disse!

-- Por que não? Quem manda em mim sou eu, e faço o que eu quero da minha vida e das minhas decisões...

-- Ah, seu cabeça-ôca. Se você der mais um passo sem me escutar antes, juro por Ifatu que não vou ser mais sua cunha.

Pela expressão de Surini, Hernan percebeu que a situação era grave. Percebeu também que Surini não brincava. Quando prometia fazer alguma coisa, podia contar que aquilo se tornava lei.

-- Está bem, Surini. Vou te ouvir. Mas, pelo nosso amor e pelo amor de minha irmã, diga-me logo o que está se passando com Amália, senão eu vou enlouquecer...

-- Assim está melhor. Mas antes de eu te revelar alguma coisa, prometa que vai entender a sua irmã.

-- Prometo, minha jóia rara. Prometo, mas me conta logo!

-- Tens de prometer por Iratu.

-- Prometo por Tupã, por Iratu, Jurupari... prometo por Jesus Cristo... pelo nosso amor... que vou entender Amália. Mas conta, mulher, pelo amor de Deus o que está acontecendo com minha irmã.

E numa expiração só, Surini falou:

-- Amália está grávida!







*** *** ***
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Foram necessárias muitas luas, para que todos entendessem o sofrimento de Amália. Mário já havia se conformado. Niranaê já esperava, com todo amor, o neto que nasceria a qualquer momento. Surini conseguiu acalmar os ânimos de Hernan, que por alguns dias andou investigando sobre possíveis estrangeiros espanhóis que estavam a se espalhar em feitorias e fortificações, por toda a Província. Nada conseguiu. Já aceitava a idéia de ter um sobrinho de seu pai desconhecido. Afinal, parte dele é sangue de sua irmã querida. Estavam todos pensativos. De repente, no fundo do tapiri que Mário havia preparado, ouviu-se a voz diferente de criança. Uma índia velha começou a gritar:

-- É curumim novo! É menino novo! E é de Amália.

Todos ouviram os gritinhos inocentes do bebê, e se dirigiram ao local. Amália estava lá. A doce Amália, de 17 anos apenas, e orgulho do pai, havia concebido um curuminzinho tão branquinho e de olhos azuis. Não precisa dizer que a alegria foi geral.

Algumas luas depois do resguardo de Amália, Moisés já tinha seus dois dentinhos. Oh, desculpem. O nome dele é Moisés. A mamãe não o largava um instante sequer. Também o tiozinho Aracém, mano da mãe, com seus nove anos, tinha um bebê de nome Moisés.

O nome foi dado pelo avô Mário. Nome hebraico, significa “Salvo das águas”. Afinal, Moisés foi concebido num igarapé, e foi fruto de um ano de sedução. Mas hoje são “águas passadas”.

Para tornar o acontecimento mais bonito, resolveram Hernan e Surini se unir, pois era momento propício. Foram três dias e três noites de festas. Torna-se necessário dizer que o caxiri foi bastante? Batuque, cânticos, tudo isso marcou os dois eventos.

Após o terceiro dia, Sur5ini, de acordo com o costume, foi se recolher à casa de sua sogra. Hernan, com seu sogro, foi aprender melhor a vida de um guerreiro adulto. Aliás, o rapaz aceitava tanto os ensinamentos cristãos do pai, como também os da aldeia, sem choques culturais.

Manhã seguinte, Aracém com seus nove aninhos resolve se distanciar um pouco. Ao longe escuta vozes e rumores distantes. Sente aquilo estranho e procura imediatamente o pai para contar o acontecido.

Mário ouve o filho e resolve investigar o local indicado por ele. De fato, os rumores e vozes estranhas foram de uma expedição espanhola que por ali passava. Será que os navegantes perceberam a presença do menino e seu pai? A dúvida começa a surgir, mas para esse acontecimento, é melhor ficar na dúvida do que se entregar ao inimigo, pois havia rumores de que corsários oriundos da Galicia estavam escravizando índios para venderem na Europa como mão-de-obra, ou para trabalharem nos trabalhos de extração do caracuri (ouro) e na coleta do pau-Brasil.

Isso prenunciou um alerta. Se torna necessário um pouco de cuidado, a partir de agora, para que seu povo e sua família não sejam moelstados pelo ardil do inimigo. Parece que a partir de agora advirão novos tempos. Finda-se o ano de 1525 da era cristã, na contagem do homem branco.

Um comentário:

  1. Alto nível, cheio de cultura, brasilidade digno de ser chamada obra-prima, sucesso, parabéns...

    Assina,

    Subtenente Inf Jocélio Andrade,do

    Batalhão Veiga Cabral...

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