NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capitulo 10


-- Caça boa! Iratu aceita caça queimando no fogo. Itaraê pede para Iratu aceitar – palavras de Itaraê, que agora está com 82 anos. A colheita tinha sido boa. Alegria está implantada no olhar do guerreiro tucuju. Ele ainda teme invasão do branco no norte d no sul. Mas as forças da natureza estão, ainda, a seu favor.

Jacareí é o quarto filho de Mário e Niranaê. Já tem nove anos. Nutre pelo ave estima imensa; mas de vez em quando apronta uma traquinagem para o pai. Coisa de curumim.

Quatro anos se passaram, depois da visita do capitão Diaz de Sólis. Niranaê está cuidado do beijo para a manhã seguinte. Ouve-se, ao longe, um ruído: é o jaguaretê que está por perto. A índia, não querendo acordar o marido que está cansado, mune-se de tacape e koiré, e vai sozinha. Grito de seu irmão, de “acói-cói” (perigo) se ouve ao longe, mas não há tempo. Um tronco de palmeira pesada cai em cima da perna direita de Niranaê. Há sangramento. O cheiro do sangue atrai a jaguaretê que se aproxima.

A fera vem chegando, e Nira, com uma dor terrível no membro, fica calada. Não pode se mexer, pois o pau pesado está sobre sua perna quebrada. A onça chega perto. A flecha de Caubi, seu irmão, porém, é mais rápida e certeira. Sangue vem jorrando do coração do jaguaretê, e a fera se arrasta alguns palmos mas cai, sem vida. Mário está à procura da mulher.

-- Nira! Niiiraaaaa!

-- Mário, mulher tua aqui. Perna quebrada. Jaguaretê morta. – A índia começa a gritar de dor. Ruído é profundo na mata:

-- Marido, perna dói... dói muito. Sangra dor e sangue.

Mário, mais apreensivo ainda, tenta consola-la após agradecer ao cunhado.

-- Mulher, a troco de quê você não me chamou para te acompanhar. Por que agiu sozinha?

-- Eu não queria acordar você, meu marido. Estava só, acordada. Ouvi barulho na mata. Pensava ser filho de mapinguari.

-- Ô mulher. Você não pode fazer as coisas sozinha. Sei que não me chamou por amor, mas a vida é mais importante que o amor.

-- Meu amor por você é mais importante que a minha vida! – acrescentou logo a índia, e fazendo uma cara feia para que Mário não dissesse mais nada. Nesse instante chega o “médico da aldeia”. O velho Itanhaê, amparado por duas cunhatãs, observava a perna da índia.

-- Que acha, ‘pai’ Itanhaê? – pergunta, apreensivo, Mário.

-- Ferida muito feia, mas Niranaê não vai morrer.

-- Ela vai ficar boa então? Oh! Graças a Deus!

-- Sim. Sua mulher não vai ficar doente, mas vai perder a perna!

A tristeza passou a dominar a aldeia tucuju. Mário acariciava sua esposa. Melancolia residia em seu rosto. Niranaê perderia a perna, mas a vida continua. O olhar da índia já estampava sorriso, talvez para confortar o marido apreensivo. Foi o sorriso da índia de 73 anos, na contagem do homem branco, que fez mudar a musculatura facial do galego.

Após tombar bastante carixi e outras ervas aromáticas, a índia suportou a dor atroz. Aliás, os ossos já estavam separados, provocados pelo peso do tronco que caiu em cima de sua perna. O feiticeiro só fez – com o auxilio da faca de maçaranduba afiada – cortar a parte da pele que ligava os ossos. A ferida ficou exposta, mas o feiticeiro diariamente banhava-a e trocava as ervas curativas e cicatrizantes cujo segredo ele só conhecia. Niranaê varou noites e noites urrando, de vez em quando, de dor, mas Itanhaê teve toda a paciência do mundo, para curá-la. E, de fato, ela ficou curada.

Passaram-se quatro luas depois que aconteceu o acidente com Niranaê. A guariba parou de cantar de repente. Jurupari, em forma de porco-do-mato, espreitava o quadro. Ele queria vingança, mas o destino mudou sua trajetória. Niranaê tinha, de fato, uma perna a menos, mas continuava a viver. A índia não foi a virgem prometida a Coaracy, e Coaracy, por isso mesmo, não perdoava a artimanha do galego. Daqui há pouco Jacy vai sumir, e Coaracy novamente fará Aracê. O castigo dos seres da floresta será eterno? Jacy não pode beijar seu amado Coaracy, e o sol tem, na lua, amor impossível. Esse dilema sempre foi cantado na história do povo tucuju. É a saga dos seres. É a predestinação dos elementais da florestas.

A coruja começa a piar. Silêncio se faz. Floresta começa a dar o ultimo ressono, frente aos lampejos do Sol, que aos poucos começa a fazer a floresta despertar para mais um dia na grande nação tucuju.

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