NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capitulo 09


A noite caiu. Os preparativos para o caxiri foram feitos pelas mulheres. Os homens chegam da caça e trazem três antas. Logo após, a aldeia estava em festa.

-- Itaraê feliz porque o capitão aceitou convite para festa.

-- Eu não poderia negar tão gentil convite, chefe. Esta vai ser uma grande oportunidade para revermos, eu e Mário, os bons momentos de nossa terra e nossa gente.

-- Por falar nisso, quais são as novidades que o nobre Capitão me trás de Castela? – interrompeu Mário, bastante curioso.

-- Ah, amigo Mário, estamos na fase das grandes navegações. Tanto em Castela, Aragão, como na Galicia, o movimento de entrada e saída dos navios é grande. Depois que Fernão de Magalhães descobriu o caminho marítimo paa as Índias, o temor pelo desconhecido mar tenebroso desapareceu. Hoje já não sabemos quantas naus por mês singram o Grande Mar Atlântico, em busca de especiarias. Realmente, o mapa do mundo agora é outro. Colombo, por exemplo, tenta provar que a terra é redonda... e esta descoberta muda o cenário das navegações – falou Diaz.

-- Se agora eu retomasse Castela, certamente eu não reconheceria nem mesmo minha família. São vinte anos e muitas milhas que me separam de minha terra. Até há alguns anos atrás, eu choraria muito, com muita saudade de minhas irmãs e meus velhos. Mas o contato com este povo me fez pensar diferente. Agora a saudade já não dói tanto. Isso não quer dizer que meus pais e irmãs se tornaram menos importantes, mas meu destino foi submetido à limalha do tempo; me tomaram uma família e me presentearam outra. Meus filhos e minha Nira me preenchem agora a vida, e já não sinto mais aquela tristeza tão grande. Este povo me presenteou com sua língua e sua cultura; e eu lhes ensinei um pouco de nossa religião.

-- Mário homem bom. – interrompeu o cacique. – antes de Mário, só meu pai conheceu outro homem branco, mas este homem, também da mesma língua de Mário, enganou meu pai e botou água de branco em minha irmã. Ele encheu a barriga da cunha com líquido de homem branco, mas o curumim nasceu morto, por ordem de Iratu. Aldeia não a aceitou mais a mãe do curumim, porque ela abandonou as leis de Jurupari. Minha irmã, assim, subiu no morro, e se jogou pela depressão da montanha. Cabeça bateu na pedra, pedra quebrou cabeça... sangue escorreu. Até hoje, no meu coração, eu sinto a ira do homem branco. Veio Mário do grande rio, e feiticeiro salvou Mario dos jacarés. Mário colocou água de branco nas entranhas da minha filha, mas não abandonou povo meu, assumindo, como verdadeiro guerreiro, a posse da minha Niranaê e tomando-a como sua esposa. Assim, dei a Mário a minha filha, parte importante de minha vida, que já estava consagrada aos deuses da floresta. Virgem, Niranaê ia ser sacerdotiza e mulher de Iratu. Mas Jurupari lançou praga e Mário se deitou com Nira, quebrando promessa. Iratu, porém, vendo sinceridade nos olhos do homem branco, revelou ao grande feiticeiro Itanhaê destino da tribo, e novo traçado no futuro. Assim, eu aceitei Mário como genro meu e filho dos meus netos, pois os nossos deuses já o haviam convocado para liderar, no futuro, nossa nação.

Após um breve silêncio, um dos imediatos de Diaz, de nome Ramon, ousou perguntar para o cacique:

-- O senhor acredita que Mário será grande chefe de tudo isso, no futuro?

O velho cacique ficou aborrecido com a pergunta interesseira do homem de Diaz, e respondeu, bruscamente:

-- Homem branco deve ficar calado, pois eu aind anão terminei fala.

Mário, entendendo a posição de seu sogro, pediu para o capitão Diaz que fizesse um sinal aos seus auxiliares, para que não interrompessem o cacique. Ao sinal de Diaz, Ramón silenciou e Itaraê continuou seu relato:

-- Existe profecia tucuju, que um dia os homens do Norte irão tomar terra dos índios. Quando vocês chegaram, pensei que era chegado o dia. Quando Mário chegou aqui, pensei que Mário seria o dominador. Mas a confusão já está desaparecendo, e agora estamos diante de pessoas amigas. Nossos guerreiros são desconfiados por natureza... mas nossos guerreiros conhecem também quando pessoa não fala sério. Por muitos e muitos tempos estamos inquietos, pois a cada lua que passa, chegam pessoas diferentes a estas paragens. Tenho muito medo. Meu povo tem muito medo. Meu avô e meu pai me ensinaram a não acreditar na língua de branco. Branco traz doença, traz saudade, traz morte... traz água proibida e embriaga nossa gente. É porisso que quando qualquer branco aparece, índio reage com branco, armado de arco, flecha, borduna e tacape. Mas agora sei que capitão Diaz é amigo; e capitão tem o comando de seus homens. Chefe tem que ser assim. Por isso eu e capitão nos entendemos.

No mesmo instante o oficial espanhol, ao consentimento de Mário, se aproximou do cacique e o abraçou. Não entendendo muito, desta vez Itaraê deixou ele se aproximar. Em seguida, todos os marinheiros cantaram uma canção folclórica da região da Galícia, o que deixou Mário muito emotivo. Começou a chorar, mas depois se refez, sorrindo para todos.

Do lado tucuju o caxiri foi servido. Do lado dos europeus, três barris de rum foram colocados à disposição. Todos se embriagaram. A tripulação das naus também comemorava. As cunhas novas serviam as bebidas, “supervisionadas” pelas mais velhas. Todos estavam embriagados. Por ordem de Itanhaê, as mulheres – à exceção de Niranaê - passaram a agradar e a ‘servir’ aos estrangeiros.

O caxiri, o beiju, o pão e o rum, misturados àquelas gentes, davam um tom de amizade e colorido. Todos cantavam. Todos dançavam. Silvícolas e castelhanos, índios e europeus... todos participavam da festa que varou a madrugada.

Os oficiais de Diaz começaram a ensinar dança castela, e as índias, com algumas tintas à base de jenipapo e urucum, começaram a pintar alguns oficiais. Não eram mulheres bonitas, sob o ponto de vista dos padrões estéticos da beleza européia, mas eram mulheres puras, naturais, sem maquiagem e sem malade... jovens, nuas, cuja perversidade do homem branco ainda não estava ali a dominar. Diaz era muito religioso. Católico por convicção a serviço “dos reis das Espanhas”, ele sempre trazia consigo alguns jesuítas, e dirigia sua nau de acordo com os preceitos da Igreja Católica.

As danças, os batuques, o caxiri, tudo isso era contagiante. Diaz ainda não tinha visto coisa igual. O escrivão da frota começou a anotar tudo isso, para encaminhar a seus reis. Jurupari, ao longe, jamais iria interromper esta festividade, que tinha a proteção de Iratu.

Finalmente chegou a hora, e os europeus se despediram para dormir. As mulheres tucuju se despediram deles, e foram para suas aldeias. O silêncio voltou, e o reino do sono começou a aparecer. Todos agora dormiam, satisfeitos por uma confraternização rara, naquelas terras tucujus. A noite já estava varando pelas entrelinhas da madrugada, e deva vazão ao dia. Coaraci já estava com vontade de aparecer.

Finalmente fez-se manhã. As naus já retesavam as velas, rumo às regiões desconhecidas. Mário ficou observando de longe as chances, talvez a última, de poder rever sua terra querida, no regresso da nau a Castela. Niranaê entendeu, ficou calada, muda por uns instantes. Também a índia estava com alegria interior, ao perceber que Mário resolveu permanecer entre eles por sua própria vontade; e isso demonstrava, sem dúvida, o amor devotado a ela e a seus filhos. As cunhas da nação tucuju nutriam, em seu interior, um pouco de inveja. Um amor assim, acima dos limites da legislação de Jurupari, solidificado e amalgamado pela sinceridade e inocência dessa coração tucuju: eis o motivo.

Luzia chorou de emoção. Seus nove anos já eram suficientes para perceber que o pai iria permanecer com eles, por amor à família. Amália sabe que sua irmã é mimada. Pega-a pelo braço, e juntas vão brincar no areial da praia de água doce. Doces crianças. Longe, Niranaê e Mário já não avistavam mais as naus, que desapareciam no horizonte. No rio, as ondas estavam a cantar, e as águas a correr.

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