NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capitulo 08


-- Que houve, curumim? – perguntou Jerena, o irmão mais moço de Itanhaê, ao menino que se aproximava.

-- Boiúna apareceu há poucos instantes, e devorou um pequeno tapir. Sua mãe tentou salvar o filhote, mas foi também devorada – respondeu Hernan.

-- É Jurupari. É Jurupari. E o que foi que você fez?

-- Peguei turé e persegui boiúna.

-- Você está doido, menino? – perguntou, preocupado, Jerena.

-- Ora! Fiquei com pena dos pobrezinhos dos animais que foram comidos pela cobra.

-- E o que era que tinha? Você não aprendeu de seu pai que quando Boiúna aparece, não podemos fazer nada? É Iratu que precisa de gente de vez em quando. Índio pode matar suçuarana, jaguatirica, quatipuru, quando está com fome. Índio não pode matar boiúna, nem em forma de sucuri. Boiúna é um único bicho que índio não pode matar. É animal de Iratu. Quando Iratu precisa de alguém, manda sucuri pegar. Por isso mesmo, índio não pode matar nem molestar boina.

-- Está bem, tio Jerena! Quando cobra sucuri aparecer, fico lcalado, parado, e a convido a me comer...

-- Também não precisa ficar assim. Você não corre perigo. Ninguém corre perigo.

Jerena se afastou, em seguida, deixando soltar um murmúrio de preocupação com os elementos da natureza. Hernandez e Niranê estão a confabular em sua nova casa. Já se passaram dezenas de luas desde o nascimento de Luzia. Estamos em 1520, e Niranaê começa os preparativos para o próximo curumim que vai nascer.

-- Como será o nome dele? – perguntou a índia ao seu marido.

-- Será Jacareí.

-- Por que tanta certeza de que ele será homem? – perguntou, assustada, a índia.

-- Porque Itanhaê me contou mais uma vez. Será Jacareí para lembar que Hernan, seu irmão, foi salvo de um jacaré. Para lembrar que eu, seu pai, fui salvo por Itanhaê de vários jacarés famintos. Para lembrar...

-- Chega! Chega, marido! Que coisa!... Não precisa repetir tudo isso. Estás com algum problema?

-- Não! – respondeu secamente o galego.

Niranaê notou que seu marido estava nervoso. Ficou também calada, sem mais perguntas, pois sabia o motivo: saudade de seus parentes da longe Galícia... da navegação... dos colegas de trabalho... e de um mundo diferente. Ela contemplava-o, comprendendo seu silêncio, com a intuição feminina de adivinhar seus pensamentos. Mas de repente, o grito quebra o silêncio.

-- Que foi, Niranaê?

-- Ele vem... está vindo. É ele mesmo...

-- Quem, minha flor?

-- O novo curumim. Jacareí...

E nasceu Jacareí, com uma vontade imensa mesmo de nascer. Dia seguinte, todas as cunhatãs estavam a visitar Niranaê, que foi contemplada com a mais nova dádiva. Jacareí veio somar aos guerreiros mais afoitos da nação. O ano de 1513 começa a raiar, na região dos Tucujus. Os Tapujusus já haviam se fixado na parte mais ao norte. Há alguns vestígios de Surubiú também perto do rio. Hernan tem 10 anos.

O dia está convidativo. Cachoeira murmura água limpa. Guariba à espreita, tentando imitar a gralha, que começa a imitar também o sabia-laranjeira. Também Uirapuru com seu mavioso canto, não fica para trás. Barulho se rompe mata adentro, acompanhado do rumor da água cristalina da cascata. Cunhas e cunhatãs em seu trabalho, e os jovens guerreiros à procura de caça, pois a pesca já não está tão copiosa nesta época de inicio do ano, apesar da presença das chuvas de janeiro. E o agora jovem Hernan já consegue ser seduzido pela água. Seu avô o ensinou como aproventá-la e senti-la. Itanhaê lhe orientou sobre a arte de escutar o rio. O matupiri e a traíra estão em convivência pacífica, observando o tamuatá à caça de alimentos no fundo do igarapé.

-- O que esta acontecendo, jovem Ituã? – perguntou o galego, ao adolescente, que estava tremendo. O índio respondeu de imediato:

-- Ituá assustado.

-- Assustado por que?

-- Ituã viu pássaro branco longe, boiando na água.
-- Onde? – insistiu Mário.

-- Vem! Ituã mostra.

Eles foram ao local. Mário compreendeu que se tratava de várias naus que, mesmo distando há várias milhas do local, suas velas já começavam a ficar visíveis e grandes. Talvez três, quatro ou cinco... trazem a bandeira o reino de Castela.

-- Ituã não compreender. Me explica, Mário. – insistiu o jovem guerreiro.

-- Tu sabes, Ituã, como eu vim parar aqui?

-- Ituã não saber.

-- Foi navio grande como esses que estais vendo. Um dos navios, o que eu viajava, bateu numa rocha e me jogou ao mar, e Itanhaê me salvou dos jacarés que estavam querendo me devorar.

-- Puxa! Então dentro daqueles pássaros que se aproximam tem mais gente parecida com o senhor, tio Mário?

--Tem sim!

De repente o jovem índio deu um salto, com ares de apavorado. E perguntou em seguida, assustado:

-- Então eles vêm lhe buscar?

-- Não... não! Não se preocupe. Na realidade eles nem sabe se estou aqui, ou se ainda existo. Na realidade eu não existo mais para eles.

-- Como que o senhor não existe? Aqui na aldeia todos sabem que o senhor existe!

-- Mas é diferente, Ituã. Aqui são poucos. Lá, de onde vim, são milhares e milhares. Nem todos se conhecem.

-- Puxa! Quanta gente que eu não conheço. Pensava que só existia aqui, e nada fora daqui...

Pararam de conversar, e observaram que os guerreiros tucuju estavam todos enfileirados na praia. Mário estava à frente. O bote já trazia, da caravela principal, três desconhecidos, todos enfeitados, paramentados com roupa diferente, e acompanhados de outros botes cheios de gente, que vinham atrás. A caravana de visitantes avistou logo os tucuju em silêncio, e um homem diferente, alto, louro, olhos azuis e pele branca, começou a descarregar e sorrir. O homem era o bem mais vestido dos três. Perto de outro homem com uma túnica toda preta, e carregando uma cruz cristã, ele observava os trajes dos índios, e destacou logo, através da coloração da pele, que alguns eram um pouco mais claros, e tinha outro bem mais claro, com traços europeus, perto deles. E exatamente se dirigindo a Mário, o chefe dos louros fez sinal a ele, pedindo permissão para sair do bote. Mário olhou para o chefe Itaraê, que o autorizou a dar a permissão. Aproximou-se, então, o homem desconhecido, fitando Mário.

-- Bom dia. O senhor fala ‘castelhano’? – perguntou o europeu, quebrando o gelo do silêncio.

-- Bom dia. Sim, eu falo castelhano. – respondeu Mário. E nesse instante o coração do galego bateu mais forte, pois já faziam quase 30 anos, na contagem do homem branco, que não tinha noticias de Castela, tampouco do reino da Galicia.

-- Meu nome é Diaz de Sólis. Sou navegador a serviço de Sua Majestade o Rei de Castela, Estou iniciando o reconhecimento oficial dessa região. Até agora só sabíamos informações provindas do capitão Yanez Pinzón...

-- Capitão Pinzón? – interrompeu, bruscamente, Mário, acrescentando: -- qual dos Pinzons o senhor está falando?

-- Vicente. O senhor o conhece? – perguntou, surpreso, De Sólis.

-- Sim. Eu o conheço. Depois que saí menino da Galícia, passei a morar no condado de Caste4la, e fui recrutado para os serviços do capitão Pinzón. Trabalhei com ele por longos anos até chegar aqui. Fui ajudante de grumete de um de seus navios.

-- Valha-me Deus! A Providência Divina está ajudando a expedição de nosso augusto rei! Nunca eu poderia imaginar que pudesse encontrar um patrício por essas bandas! Principalmente alguém que conheceu o grande Pinzón! E você, pretende ficar aqui? Vejo que sua pele está pintada e já tem umas crianças mestiças. Você já se veste igual a essa gente.

-- É, capitão! Pretendo ficar por aqui mesmo.

-- Algo te impede de sair daqui, meu bom homem? Estamos aqui para te proteger e te dar cobertura, caso queiras vir conosco. Serás de grande utilidade para Sua Majestade nosso Rei. Através de você ele saberá o dia-a-dia destas terras, e quem sabe, ele não te nomearás para o cargo de Adelantado?

Mário chamou Niranaê, que estava próximo de seus filhos, e apresentou-a ao comandante da expedição:

-- Essa é minha família. Niranaê é minha mulher... e esses são meus filhos.

O capitão Diaz, surpreso, dirige-se a Niranaê.

-- Puxa! Que mulher bonita tens! Beleza natural e sem aquela maquiagem das européias, jamais vistas, homem! – e batendo forte nos ombros de Mário – você tem muita sorte...

Seu papo foi interrompido. O baque que teu no ombro de Mário, quase que provocou um desastre. De inopino, todos os guerreiros, armados de tacape e borduna, outros de arco e flecha, já vinham em socorro do galego, ordenados pelo velho Itaraê, que não entendeu aquele cumprimento de homens brancos.Percebendo o perigo que o oficial corria, Mário fez sinal para que eles não reagissem... e se dirigiu, correndo, ao velho cacique, na língua galega que ensinara ao velho guerreiro:

-- Itaraê, meu sogro, não deixe fazer mal a essa gente. Este toque que o chefe deles me deu é um cumprimento de amizade, que usamos muito lá na Europa, quando estamos alegres. Por favor, não entenda mal, sim? Faça isso por mim, ta?

O velho guerreiro, mais calmo, ordenou aos guerreiros que baixassem as armas. E falou, solenemente, a todos:

-- Itaraê também pede desculpas e oferece lugar para repouso. Grande festa hoje, para saudar irmãos filho Mário. Amigo de Mário é amigo de Itaraê. Inimigo de Mário é também inimigo de Itaraê.

Diaz respondeu, um ouço surpreso:

-- Puxa! O senhor fala castelhano? Quem lhe ensinou a falar tão bem a nossa língua?

-- Mário ensinou Itaraê, filha Niranaê, e parte desses guerreiros tucju. Mário bom homem, ensinou a gente a falar língua estranha, mas engraçada, de branco.

-- “Capitão” Itaraê, em nome de Sua Majestade o Rei de Castela, eu e meus homens ficamos alegres pelas saudações de seus homens. Só vamos ficar aqui hoje. Amanhã cedo partiremos. Mas no meu coração de velho ‘lobo-do-mar’, ficará a lembrança tão pura e alegre desse povo de raça prístina. Ficamos honrados em te conhecido guerreiros tão fortes, tão varões, tão destros... – O velho cacique, não entendendo a fala do chefe branco, interrompe:

-- Itaraê não entender essas palavras do capitão.

Percebendo que o linguajar cerimonioso de Diaz de Sólis foi incompreensível para Itaraê, Mário explicou ao guerreiro-chefe, de forma simples, ao que Itaraê respondeu:

-- Hum! Agora Itaraê entende. Capitão, pode ficar aqui o tempo que quiser. Lá na grande taba tem bastante lugar para seus guerreiros descansarem.... – Mas o cacique foi logo cortado pelas palavras de Sólis:

-- Eu agradeço seu convite, chefe Itaraê. Porém, vamos hoje dormir nos navios, pois meus homens estão há muitas semanas navegando, e com tanta índia bonita aqui, expondo suas belezas, não queremos provocar incidentes desagradáveis por aqui.

Mário explicou ao chefe as preocupações do capitão Diaz. Itaraê entendeu, mas impôs uma condição:

-- Está bem! Itaraê entende capitão. Capitão demonstra ser bom homem e bom chefe. Mas Itaraê quer fazer festa hoje, quando Jaci aparecer. Nossas mulheres dançarão com seus homens. Os homens das nossas mulheres vigiarão seus homens, para que não cometam exageros...

-- Aceito com prazer. Virei à festa. Trarei apenas meus homens de confiança. Mas amanhã cedo partirei. Penso que Mário virá comigo, se quiser.

-- Não. Mário pertence agora à nossa gente. Todos os nossos guerreiros gostam de Mário, e Mário e feliz, com minha filha Niranaê, os curumins e as cunhatãs.

Mário ficou preocupado com a brusca reação do velho cacique, mas também notou muita ternura nas palavras do guerreiro-chefe. Pediu, assim, um tempo ao Capitão, e foi falar com o grande chefe:

-- Pai Itaraê, fique descansado. Jamais abandonarei vocês. Aqui é meu lar, minha família são todos vocês. Amo Niranaê, e tenho certeza que só poderei ser feliz aqui mesmo com você. Fique tranqüilo. Meu lar é aqui.

No exato momento, o velho guerreiro deu um abraço bem forte no galego. Pela primeira vez esse gesto do cacique foi executado. E assim, falou o guerreiro tucuju:

-- Itaraê agradece filho! – No mesmo instante, Mário tratou de enxulgar três lágrimas que saíram do rosto de Itaraê. Seus 80 anos de vida ainda o conservavam lúcido. Mário, agora, estava convicato de que tinham pessoas que o amavam e o admiravam. Não podia, a nenhum instante, sob qualquer argumento, e a qualquer preço, decepciona-los.

O capitão compreendeu o vexame que causou, mais uma vez, e dirigiu-se a Mário, pedindo novamente desculpas.

-- Está bem, capitão. Como o senhor ficou sabendo pela boca do próprio chefe, meu povo agora é este! E eu me sinto muito bem com eles. Pode vir à noite para comemorarmos, juntos, esse reencontro. Mas no dia seguinte, ao partir, só gostaria de ter sua palavra de que não insistirá para que eu me vá, na frente do chefe Itaraê. Eu não conseguiria desagradá-lo, pois além de meu sogro, sempre me acolheu e me respeitou aqui como seu filho.

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