NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 07

E
stamos no ano de 1508, na contagem do homem branco. Na nação tucuju Hernan está no descampado da margem direita do igarapé principal, observando o tio-avô Itanhaê, que coleta ervas sagradas. O grande jacaré está à espreita, em algum vacilo que o curumim poderá dar. Hernan recolhe, agora, alguns frutos silvestres no seu balaio. Seus cinco anos de vida já lhe dão um vigor de varão-menino. O jovem guerreiro mirim se afasta um pouco do pajé.

O jacaré-açu, ao longe, ainda o observa. Também a jaguatirica, com saudades de sua última caça, alimenta a possibilidade desta pequena sobremesa. O silêncio é quebrado pela voz do filósofo da tribo, que pergunta pelo curumim.

-- Hernan... Hernan... Onde estás, meu filho? Responde-me, por Iratu.

O curumim ouviu os gritos do velho pajé à sua procura, mas está imóvel e com medo, diante do perigo. Coracy já estava bem em cima do céu, anunciando a hora do almoço. Os olhos da jaguatirica não mostravam tanto brilho, pois era dia, mas seus sentidos estavam aguçados e agitados para o bote. Ao desfecho do mesmo, ela sentiu, de repente, uma dor acutíssima na região do pescoço. Segundos depois, jazia sem vida, cravada por outra flecha certeira na região do coração, desferida pelo feiticeiro. Só restava o jacaré, que não percebeu a rapidez da manobra do velho. O curumim já avistava Itanhaê na outra margem. O jacaré resolver debandar também.

-- Pai, foi o senhor quem fez isso? – perguntou, atônito Hernandez que estava chegando naquele momento, em razão dos gritos de seu ‘pai’.

-- Psiu! Quieto!

Não foi preciso avisar Hernan de outro perigo. O primeiro jacaré havia desaparecido, não por causa da presença do feiticeiro, mas por causa de outro jacaré ainda maior, que disputava também a pequena caça. O curumim ficou paralisado... não somente de medo, mas também em obediência ao velho guerreiro. Não muito rápido, mas com técnica e precisão, o velho Itanhaê ficou à frente do réptil, com a borduna em punho. Num vacilo do velho, porém, o jacaré abocanhou Itanhaê e o puxou para o igarapé. Foi uma grande luta. Poucos minutos depois, aparece o velho banhado em sangue... sangue do réptil, cujo corpo já boiava na superfície.

-- Tio, tio... o jacaré comeu o senhor? – perguntou, assustado, o menino.

-- Não estás vendo que estou vivo, curumim?

O menino olhou fixamente para o velho. Já ia chorar, mas sentindo um piscar de olhos de Itanhaê, ambos começaram a sorrir. O velho feiticeiro abraçou o menino. Ficaram algumas horas conversando sobre o episódio. A conversa foi cortada por um barulho vindo da parte Norte de onde se encontravam.

-- Hernan, Hernan... meu filho! Ó Hernan! Você está bem? – perguntou, apreensivo, Hernandez, após passado do susto.
-- Estou bem, papai – respondeu o curumim.
-- Puxa! Onde você estava, menino? O que foi que... -- Itanhaê interrompeu:
-- Ele estava comigo o tempo todo, Mário! Que mal há nisso? – Só agora Hernandez sentiu a presença do velho feiticeiro.
-- Oh, desculpe-me, ‘pai’ Itanhaê. Não tinha notado sua presença.
-- Que coisa! Será que estou tão invisível assim?
-- Não é isso, meu velho. É que estava tão preocupado com esse curumim, que não via outra coisa além da vontade de me encontrar logo com ele. Desculpe-me, ta?
-- Tá bem. Dessa vez passa! – e saiu resmungando. Mário dirigiu-se ao menino, mais calmo:
-- Estás bem, filho?
-- Sim, pai. – disse Hernan.

E observando mais de perto o velho pajé, Mário notou o cheio e a cor do sangue vivo. E o menino explicou:
-- Tio Itanhaê lutou com o jacaré que ia me comer. Também lutou com a jaguatirica que estava também querendo me comer.
-- O que? – Mário começou a perguntar, preocupado, para o feiticeiro, o que aconteceu aqui, ‘pai’ Itanhaê? Conte-me o que aconteceu, senão vou ficar doido...

E Itanhaê contou tudo, mostrando a jaguatirica estendida, e ao longe o corpo do jacaré, que se misturava à água barrenta do igarapé, que estava um pouco tinto de vermelho.

-- Meu Deus! Que perigo o senhor passou! Agora que minha dívida aumentou mesmo. Como vou lhe pagar?

-- Você não me deve nada, meu filho!

-- Como não lhe devo? Foi o senhor quem me salvou, logo que caí do navio que vinha da Galícia! Agora o senhor salva meu filho, meu único filho, além de Amália?

-- Seu único filho? Quem lhe falou esse absurdo?

-- ???!!!
-- Ah, é? Que cara é essa? No ventre de sua mulher já está se formando outro curumim. E tenha cuidado, que Jurupari já sabe! E não vai ser curumim... vai ser cunha!

As têmporas de Mário começaram de novo a ficar rosadas. Itanhaê revirou os olhos e o nariz para um lado e para outro. Pitou um bocado e colocou no seu balaio as ervas que precisava, perdendo-se, em seguida, na floresta, rumo à sua casa. Mário pegou Hernan pelo braço, e foram correndo também. Niranaê já os esperava.

Muitas luas se passaram. A criança nasceu.

-- Como és linda, menina! – falou Mário.

-- Como você sabe que é mulher? Quem lhe contou? – perguntou, assustada, a mamãe Niranaê.

-- Foi o velho feiticeito. Itanhaê é sábio. Sabe tudo! Sentiu até ocheiro da criança passando por suas narinas.

-- Que nome daremos a ela, meu marido?

-- Ela se chamará Luzia, porque veio dar mais luz à nossa vida... veio luzir nossa taba de amor e harmonia.

-- Se você quer, tudo bem!. Agora somos cinco: eu, você, Hernan, Amália e Luzia.

-- De fato somos cinco!

-- Somente cinco, não é, meu marido?

-- Não. Itanhaê falou que virão mais...

-- Não duvido. Itanhaê sabe o que diz, e diz o que sabe! – completou Niranaê.

-- Não se preocupe, querida. Amo você e todos eles. Que venham todos. Vamos construir uma grande família.... e uma nova nação.

Noite qualquer de 1508. O cururu começa a coaxar alto! A velha Ikatuã cantarola uma canção de ninar tupi. As jaguatiricas e suçuaranas tomam posição para abordar uns quatipurus que estão por perto. Jacy agora reina, e os cricrilos e estalidos dos pequenos animais já alimentam o silêncio sonoro produzido pelos ventos nas palmeiras. Luzia veio, mais alegre que outras meninas. Não é preciso dizer que o caxiri novamente foi servido.

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