NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 06


Os primeiros frutos de tucumã começam a surgir. O fruto do açaí já brilha, de longe, da palmeira. O cupuaçu floresce e seu aroma exala por toda a região. É tempo de fartura. Trinta e seis luas (três anos, na contagem do homem branco) tem agora Hernan, e o jovem Mário se orgulha, como um pai feliz. Niranaê, também, não podia deixar de estar feliz com tudo e com todos. Mas alguma coisa anormal começou a acontecer. Alguns nativos estavam assustados, e interrogavam-se mutuamente.

– Que foi, Ikatuã? – perguntou uma índia ao seu lado.
– Ikatuã assustado... muito... muito – respondeu o jovem Ikatuã.
– Assustado Ikatuã por que? – insistiu a interrogante.
– Ikatuã viu Curupira perto do igarapé. Curupira grande.
-- Maior que boiúna?
-- Não. Boiúna maior. Boiúna tem mais poder que curupira, mas curupira assustou Ikatuã.

E a índia interpelou, ainda mais.

-- Por que Ikatuã tão assustado por causa de curupira?

Estremecido, Ikatuã respondeu:

-- Curupira pediu avisar Mário que novo curumim não é um simples índio. Curumim de Mário é mais forte. Sangue é forte.. Preciso avisar Niranaê.

Nisso, Itanhaâ, o pajé, estava chegando, e ouviu o final do relato do jovem Ikatuã.

-- Que diz Ikatuã? Por que tanto susto? Quem te mordeu?
-- Ikatuã tem recado de Curupira pra Mário.
-- Hum!... que recado?

E o jovem índio narra ao pajé o encontro entre ele e a entidade da floresta.

-- Só isso? – pergunta Itanhaê ao jovem índio assustado.
-- Sim, meu velho. E você ainda acha pouco? O menino de Mário será um menino gigante no futuro. E o senhor acha que isso é normal?
-- Como vocês jovens tiram conclusões tão apressadas.... Ora ora! A notícia é boa.
-- Boa notícia por que? – perguntou Inhetá, a mulher do feiticeiro, que estava em companhia dele, pitando.
-- O menino Hernan não será gigante, não será um homem grandão. O recado de Curupira não é isso. A boa noticia é que Mário e Niranaê vão ter outro curumim. E não será homem. Será mulher, e muito bonita.

Muitas luas se passaram. Na cabana de Mário, o choro de um novo ser passou a quebrar o silêncio da madrugada. O galego sabia que Niranaê estava esperando uma criança, mas não imaginava que iria nascer, exatamente, naquela noite. Ou o nascimento foi prematuro, ou a índia não soube calcular direito a gestação. Ele não sabia se ficava feliz ou triste. Feliz porque viria um novo ser, do ventre de sua índia, encher a nação tucuju de alegria. Triste porque, caso seja nascimento, sua Niranaê terá que se separar de todos – segundo os costumes da tribo – até o período do resguardo, e ele terá que fazer tudo isso sozinha.

-- Niranaê, meu anjo, o que aconteceu?

E a índia responde ao marido:

-- É outro presente que te dou, marido meu. É uma linda cunha.

Mário foi olhar rapidamente a criança que saiu agora para a vida. Ele ainda não vai poder pegar no bebê, mas de longe, já começou a dar instruções para a sua cunhatã:

-- Ela se chamará Amália, nome de minha irmã mais velha, que nunca mais a verei! Este nome será minha alegria e ao mesmo tempo perpetuará minha saudade e meu encanto pela mana que está distante... muito distante.

Várias lágrimas começaram a descer dos olhos do galego. A saudade da família tocou neste instante. A índia o interrompeu.

-- Não chora, meu marido. Vamos nos conformar com as determinações de nossos deuses. Eles devem ter seus motivos, e com certeza estão brindando a chegada de nossa cunha. E ela será Amália, sim. E Hernan será seu irmão guardião. Amália é mais um fruto de minha entranha, e parte de você, e é bem vinda aqui!

-- Sim – assentiu Itanhaê, que vinha chegando para dar as boas vindas, antes da clausura de Niranaê e seu bebê para o cumprimento do resguardo. – Conversarei com nossos guias protetores, para que protejam nossa linha cunhã. Será a cunhatã mais linda, tão linda quanto sua mãe, e terá, também como sua mãe, seios fartíssimos e cheios de leite para reproduzir, no futuro, guerreiros maravilhosos.

O velho cacique já estava de volta da caça, e também sentiu-se feliz pela notícia. Seus 61 anos, e acordo com a contagem do homem branco, o faziam ainda guerreiro respeitado, como seu pai Itagiba o foi. No instante, ele deu os gritos de guerra maiores de todos os outros que já havia dado, em acontecimentos como este. E parecia que a floresta silenciava... os animais dos arredores o escutaram... e calaram-se, talvez em reverência e respeito, afastando até mesmo – quem sabe – os demônios da noite.

-- Amália, minha neta, filha de Niranaê!. Homem Mário tem filha bonita. Somos todos gratos a Iratu, pelo presente. – profetizou Itaraê, todo feliz.

-- Somos também gratos a Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo! – acrescentou Mário. – Obrigado, Senhor, pelo presente divino que veio do ventre de Niranaê.

-- Obrigado Jesus, obrigado – completou a índia, ajudando o marido numa espécie de prece, por uma divindade que ainda não lhe era conhecida, mas que era muito grata, por ter lhe dado um jovem galego tão bonito como Mário. Sorte igual não tiveram as mulheres da sua aldeia.

O ciclo de recolhimento de Niranaê terminou, após uma lua. Ela é recebida em festas pelo marido e o filho Hernan. Os turés começaram a aparecer mais tesos. O rio estava em sua vazante. Os tapuios recolhem agora o material de pesca. Dezesseis pirarucus e trinta curimatãs agitavam-se desesperadamente, frente ao sacrifício do fogo em brasa, que já arde, na clareira improvisada pelo velho Itanhaê, que resolveu dar uma de mestre de culinária do mato. As índias acabaram de aprontar o caxiri e todas essas iguarias seriam servidas daqui há pouco, para marcar o nascimento de Amália. Com ela, vieram novas alegrias e bons presságios, e a esperança de dias melhores.

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