NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 05


Estamos atravessando o ano de 1504, na contagem do homem branco. Muitas luas se passaram desde o casamento de Mário e Niranaê. Nas terras do Cabo do Norte nasce um lindo curumim. O nascimento foi interpretado, segundo os feiticeiros da tribo, como um pacto entre os senhores da floresta e os tucuju.

– Neto meu. Curumim robusto. Homem que minha filha me deu. Eu estou muito feliz - murmurou de alegria, o guerreiro Itaraê, ao lado da avó Itanubá, também toda contente.

– Sim, meu marido. Muito feliz também eu estou, porque agora sou avó.

– Se mulher Niranaê é filha minha, menino será valente... grande guerreiro e caçador. Boiúna respeitará. Onça suçuarana mal não fará. Menino tem proteção de Iratu.

O velho Itanhaê havia sabido da notícia. Não podiam ver Niranaê, tampouco o menino, até que estivesse completo o ciclo da gestação, que perduraria por uma lua (equivalente a um ciclo lunar na sabedoria do homem branco, isto é: quatro semanas, o que correspondia a um mês). Niranaê, segundo o costume da tribo, teve sozinha o curumim. Limpou-o e cortou, com os próprios dentes, o cordão umbilical, passando na ponta um pouco de cinza quente de tabaco, para sarar logo. E as duas luas se passaram. Mário Hernandez já havia assimilado o idioma tupi, e passou a ensinar a seu sogro, ao amigo e a quem chamava de “pai” Itanhaê e à sua esposa, a língua espanhola, aliás, tão melodiosa como o tupi.

– Êta menino robusto! É sangue do meu sangue. É pele de minha pele. Tem uma coloração tão tosada quanto a ponta do mamilo de sua mãe – falou Hernandez.

– Você falou de mim? Será que eu tenho beleza, meu marido? – perguntou Niranaê, toda contente.

– Você é muito mais bela que todas as galegas que conheci, dalém mar. Mesmo a beleza da filha do capitão Pinzón, ajudada pela maquiagem das damas vaidosas, não se compara à sua beleza natural, esposa querida. É por isso que te escolhi para ser a minha companheira até o final de nossas vidas.

– O meu marido está agora a gozar de mim – desconfiou Niranaê ao ouvir os galanteios de Hernandez.

– Não, querida... não é verdade! Eu te amo muito! Você está sendo a mãe dos meus filhos. Deus é testemunha de nossa união, e tenho quase que certeza de que ele me abençoa e abençoa nossa família, explicou o jovem galego.

– Você acredita muito nele, não é? Será que ele também gosta de mim? – perguntou, cheio de ternura e inocência, Niranaê.

– Sim, meu amor. Tenho nele toda a fé do mundo.

– Meu povo também tem fé em Iratu; e quando alguém comete uma falta grave, ele envia Anhangá, o destruidor, para fazer companhia ao faltoso.

– Fale-me um pouco de Anhangá – pediu Mário a Niranaê.

– Não podemos falar de Anhangá, porque ao invocar seu nome, ele pode vir assombrar a gente, e fazer muita desgraça. O único que pode falar de Anhangá é tio Itanhaê, mas eu duvido muito que ele queira falar alguma coisa com você sobre esse espírito mau.

– Vale a pena tentar. Vamos até ele. Deixa que eu pergunto – falou, convincente, Hernandez.

Ninaraê insistiu muito para que Mário não falasse com seu tio sobre Anhangá. Mas, diante da teimosia do galego, ela cedeu e se foi em companhia do marido, até a tenda do feiticeiro. O velho Itanhaê estava pitando seu cachimbo de barro e taboca. Ouviu o barulho da chegada dos dois moços. Niranaê estava com o curumim no jamaxi.

– Pai Itanhaê, tudo bem? – cumprimentou o galego ao se aproximar do feiticeiro.

– Tudo bem, filho. A família está bem? E você, Nira, como vai? Como vai o menino?

– Vai tudo bem, tio – respondeu a índia-guerreira.

– Queremos conversar com o senhor. Podemos? – perguntou Hernandez.

– Claro que sim, meus filhos. Podem entrar. Tio está ouvindo. Que querem com este velho aqui?

– Tio, queremos saber alguma coisa sobre Anhangá – respondeu Mário.

Após o galego ter pronunciado o nome proibido, a face de Itanhaê ficou robusta de raiva. Antes de falar alguma coisa, o feiticeiro se engasgou com a fumaça do cachimbo, que por uns alguns segundos foi necessária a ajuda de Mario para dar-lhe uns bons murros na costa. Ele vociferou:

– Fora daqui! Nome de demônio á mau agouro. Fazem três luas que afastei Anhangá daqui, e vocês vêm aqui falar o nome dele?

– Mas tio – retalhou, preocupado o galego – desculpe-me. A culpa foi toda minha. Queria apenas saber alguma coisa sobre ele. Niranaê não tem nenhuma culpa nisso. Não queríamos ofender... tampouco quero me cruzar com ele... já que ele é tão mal assim...

– Assim é que se fala, menina. Mas como eu amo muito você, e com certeza o Mário tem que ser orientado sobre essas artimanhas de Anhangá, eu vou abrir uma exceção e contar alguma coisa sobre ele. O que vocês querem saber, agora, sobre o maldito?

– Tudo.

– ???!!!

– Não se assuste, tio. Está em! Só ouvirei aquilo que o senhor falar, sem perguntas!

– Assim sim! Sem perguntas mesmo. Pois bem. Anhangá é visagem de gente, de tatu, de veado e de boi. Em qualquer um, Anhangá trás para aquele que o vê, ouve e pensa, a desgraça; e qualquer lugar freqüentado por ele, é mal-assombrado. Anhangá está também na água, em forma de pirarucu e tartaruga, que são o desespero de nossa gente, quando está pescando...

– Como ele aparece? - interrompeu Mário, deixando o velho mais nervoso ainda.

– Você prometeu não fazer perguntas.

– Desculpe, “pai”. Só vou fazer essa mesma e nenhuma outra: me diga como ele pode aparecer para a gente?. Não custa nada responder, tio.

– Toda cabana sem azeite queimado, chama Anhangá. Também Anhangá aparece a índio que persegue animal que amamenta. Às vezes ele vem, confundindo gente que ouve. Anhangá bicho mau, piaga, primo de Jurupari. Existem muitas histórias do meu povo sobre Anhangá. Existe aquela que...

– Conte-nos esta. – interrompeu novamente o galego.

– Meu filho, você me interrompe muito! Não cumpre palavra! Fizemos um trato. Trato é para ser cumprido. – falou, um pouco raivoso, Itanhaê.

– Puxa, tio... você não deveria se aborrecer tanto com Mário. Não fique zangado. Leve em conta que ele nada sobe sobre as artimanhas de Anhangá e tem que ser instruído para que não caia em nenhuma delas – suplicou Niranaê, em defesa de seu marido.

– Você não precisa implorar, Niranaê. Ta bom! A partir de hoje vou ficar mudo – vociferou, já impaciente, Mário – Não vou falar mais nada... não vou perguntar nada mais. Sou um túmulo. Sou um turé seco... mas também, tio, se não quiser falar nada, não estou nem aí. A boca é sua, a sabedoria é sua e faça o que quiser. Paciência!. Deus me livre! – atalhou, já bem aborrecido, Hernandez.

– Tá bom! Tá bom! Você me ganhou. Eu não quero mais ver homem choramingar na minha frente – Agora, com paciência, o feiticeiro passou a atender Mário. – Vocês pediram para eu falar de Anhangá com vocês. Eu vou falar. Só não venham reclamar depois, se mau agouro entrar na tenda de vocês. Aí vai: Uns veados devastaram uma roça e os donos da plantação mataram e levaram os corpos para moquear. Pela manhã encontraram, em vez de carne do veado, carne humana em cima do moquém. Jogaram ao rio a carne humana moqueada. Duas luas depois, apareceram pessoas que procuravam seu avô e a mulher do avô, que se tinham daí sumido. Já então, essa gente soube que aqueles dois velhos que estragavam suas roças, eram gente.

– Puxa! Isso aconteceu, tio? – perguntou Mário, um pouco apavorado!

– Claro que aconteceu, Mário – asseverou Niranaê – hoje mesmo eu ouvi falar de um relato de...

– Niranaê não precisa me defender – interrompeu bruscamente Itanhaê. – Eu, Itanhaê, filho de Assyntawá, me defendo sozinho. – Niranaê calou-se, em reverência ao velho sábio. Mário imitou a índia.

– Afinal de contas, sou em quem persegue Anhangá para ficar bem longe daqui. Vou lhes contar outro caso que se sucedeu com esse demônio: A poucos instantes daqui, um índio perseguia uma fêmea de veado que era seguida do filhinho que amamentava, depois de havê-la ferido. O índio, agarrando o filho da ‘veada’, embrenhou-se atrás da árvore, fazendo o veadinho gritar. Atraída pelos gritos de agonia do filhinho, a ‘veada’ chegou-se a poucos passos de distância do índio. Ele a flechou, ela caiu. Quando o índio, satisfeito, foi apanhar bicho abatido, reconheceu que havia sido vítima de Anhangá. A ‘veada’, a quem ele, índio, havia perseguido, não era uma ‘veada’. Era sua própria mãe que jazia morta no chão, varada com a flecha, e toda dilacerada pelos espinhos.

Itanhaê silenciou de repente. Já não podia falar mais nada. Prosseguir era perigoso demais. Niranaê entendeu e fez sinal a Mário para que silenciasse. Após o feiticeiro ter recomendado o destino do menino que Niranaê conduzia ao colo, aos espíritos da floresta, o ‘filósofo tucuju’ entregou-se ao sono merecido, após ficar o dia inteiro dedicado às suas tarefas. Sabia Itanhaê que o filho de Mário era mais uma dádiva de Jacy que, radiosa, já contemplava a noite. Após o sono, Jacy agora é Aracê... é dia... e Mário Hernandez pronunciou, pela primeira vez, o nome de seu primogênito, segundo o costume tucuju:
– Ele se chamará Hernan, e viverá muito. E sua luta do dia-a-dia só servirá para assegurar a paz à nossa gente. Tupã, ou meu Deus cristão, sem dúvida alguma, protegerão nosso ‘rebento’, e ele será a aurora de uma vida rica e tão doce, cheia de aventuras! Jurupari ou Anhangá não serão capazes de interferir na vida desse nosso menino... e seremos, os três, e mais outros que porventura vierem, muito felizes!

O rugido do mar amazônico começara a entoar seu canto de amanhecer. Os botos, ao longe, não eram capazes de quebrar a melodia da floresta. Na mente da juventude tucuju, o tom musicalizado era das vozes dos caboclos distantes, que preparavam-se para a jornada da caça e pesca. E a mulherada, com curumins de todos os lados, já espremia o tucupi no tipiti; outras, ralavam com pedras pontiagudas, o aipim para fazer a tão gostosa farinha de mandioca, tributo de Kokiretê, Zokoietê e Aiolô, as divindades da fartura e do alimento. Hernan ainda dorme no seio de Niranaê.

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