NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capítulo 04


Niranaê é a virgem de Iratu, índia robusta, meiguice da nação tucuju. Hoje ela se prepara para cumpri mais um ritual, o de sua iniciação à vida social. De sua puberdade, ela passará a ser mulher, mas uma mulher diferente, cuja vida será devotada a Iratu; e essa foi a promessa de Tupã; esse foi o juramento de seu pai, mesmo que tenha sido feito a contra-gosto.

Voltemos ao nosso personagem assustado. Preso e amarrado no mastro principal da aldeia, Hernandez contemplava Niranaê de longe. Os tucuju estavam reunidos na grande ocara, com os mais velhos da tribo, tentando ver que destino dariam a esse invasor branco.

O diálogo aqui, expresso pelos lábios, quase não existe, movido pela dificuldade lingüística momentânea. Porém, o impulso do olhar magnético entre o castelhano e a silvícola, é capaz de traduzir ternura e curiosidade, carinho e compaixão, com um gosto de sedução.

Seria quase impossível que os olhos azuis do europeu não cativassem o coração de Niranaê, e a tez serena da índia não mostrasse, de seus lábios, um sorriso de assentimento; e de seu coração, um feliz retorno às lindes de Eros, com o consentimento da lua Jarí, brilhosa, radiosa, nesta noite tão turbulenta e cheia de sobressaltos.

Foi exatamente nesse clima confuso que o inevitável aconteceu. Niranaê provou, pela primeira vez, a água do homem branco. Mas Jurupari não gostou, pois Niranaê era a prometida de Iratu. Assim, o destino reservado ao guerreiro branco foi apressado: ele acabava de transgredir um pacto celeste. Ou melhor: ele acabava de desvirginar Niranaê. Ela não era, mais, a partir de agora, a prometida de Tupã.

-- Que fiz, meu Deus? Será que você não sabe o que fizemos?

Foi necessária uma mímica toda especial. E Niranaê entendeu, passando a chorar. O que fazer? De cunhatã a cunha. De cunhatã a mulher de verdade, ela recebeu água perigosa do homem branco. Como não houve testemunha real, eles passaram a ser guardiões mútuos de um segredo, pelo menos, por enquanto. Ela foi se banhar no igarapé, para que as águas levassem o fluido seminal de sua sedução.

Duas luas se passaram, e o destino do jovem Mário finalmente foi decidido: Itanhaê conseguiu convencer o Conselho de Tribos que Mário permanecesse entre eles. Mas tinha um preço: o jovem teria que estudar seus costumes e se adaptar a ele. Mário não poderia deixar, a partir daí, em hipótese alguma, os Tucuju.

Quanto à Niranaê, a pobre cunhatã fazia de todas as maneiras para ficar perto do jovem Mário. O tempo os ajudou a compreenderem um ao outro. Mário aprendera a respeitar Itaraê de quem, aos poucos, granjeava admiração. Agora, índio branco, ele se atreveu a falar de seu capricho e de seu amor pela jovem índia. Depois de muitas negativas, finalmente Itaraê, sob recomendação do feiticeiro que tinha recebido, luas atrás, presságio dos espíritos da floresta, de que a índia poderia desposar Mario, consentiu finalmente que fossem marido e mulher, pois ele demonstrou, por muito tempo, que poderia ser confiável.

Mas a feiticeira Makulelê, um pouco matreira, fez Niranaê confessar que estava com umas esquisitisses no corpo, e que o sangue vivo que vinha periodicamente entre as pernas, parara de vir. O contato ente Makukelê e Itanhaê transformou aguilo que poderia ser entendido como tragédia, em uma solução. Um filhote vinha, e era necessário que fosse bem-vindo. Com isso, o velho feiticeiro convence os anciões da tribo e o guerreiro-chefe Itaraê, da necessidade de solicitar às divindades da selva que Mário desposasse Niranaê.

Ao que tudo indica, as divindades consentiram, já que Iratu não enviou alguma manifestação de aborrecimento por algumas luas. Começam os preparativos para o cerimonial do casamento. A noiva está radiante; as mulheres ornamentam a bela Niranaê confeccionando uma coruna dupla, ornada com penas de beija-flor e penacho de tucano. Em volta dos mamilos dos seios, foram colocados adornos sagrados, e um desenho à base de urucum, representando o padrão tucuju de identificação: uma espécie de tucumã, de cujos caroços, eram adornos sagrados dos remanescentes, que representavam a fertilidade. A introdução do desenho do tucumã no seio de uma índia tucuju significa a lembrança de que ela tem o dom da fertilidade, e era obrigatória esta lembrança em todas as índias da nação. Itanhaê pediu a proteção das divindades da floresta, pela união de Mário e Niranaê, invocando a Iratu para que enviasse muita fartura nas terras tucuju, e que do vente de Niranaê saiam os varões que selarão o destino do grupo.

Após a permissão de Iratu, recebida por Itanhaê, os olhos do pai da noiva estava radiantes, pois ele iria, a partir daí, receber lindos netos, mesmo que sejam de coloração diferente. Niranaê sentia-se feliz, pois terias as carícias do seu amado Mário. O galego já não sentia mais saudades da pátria distante... somente algumas lembranças de seu capitão Perez.


*** *** ***

As ultimas noticias davam conta que um certo aventureiro, alcaide-mor de Azurara, de nome Pedro Álvares Cabral, havia partido do Tejo, em Portugal, seguindo a rota de seu antecessor Vasco da Gama, desviando-se, porém, para o ocidente. Isso o levou a descobrir o grande continente, que hoje constitui a nossa civilização, onde se passam estes episódios de história da nação tucuju.

E Pinzón? O rei espanhou, recompensando seus serviços, doa-lhe a patente de capitão-mor e o titulo de governador das terras que ele havia descoberto. Mas o lugar onde agora estava Hernandez, se tornara um ponto geográfico ainda obscuro, mesmo que marcado nas cartas de Pinzón a seu rei: Rio de Vicente Pinzón, localizado na Costa Palicúria; rio que dará guarida aos guerreiros wajapi que virão, mais tarde, do baixo Jarí. Mas vamos por parte.

O caxiri ficou mais gostoso nesse dia, no Cabo do Norte. A dança do turé foi executada com os acordes do velho Jandir, o mestre da musica, que também era mestre preparador de emboscadas, e desencantador de sereias. E Jandir conseguiu faze-las desistir, por três luas inteiras, de importunar qualquer guerreiro por aquelas bandas.

Fez-se Araci novamente. Jurupari pretendi seguir sua missão, atrás de outra virgem para Iratu, já que essa fora arrebatada para Hernandez.

De longe, no alto Araguari, a pororoca começa a quebrar o silencio. A cunhatã recolhe amostras de jurema para fabricar um manjar para os noivos sedentos de amor. Kerpinhana, a divindade dos sonhos, passa imagens eróticas nas mentes de Mário de Niranaê. Jaci já instalou seu reino provisório sobre a face da terra. Só se ouvem agora os cricrilos e estalidos dos grilos, e o barulho ululante dos seres da floresta, que agora dormia entre os elevados do Tumucumaque.

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