NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capitulo 03


Ano de 1500, na contagem do homem branco. O espírito aventureiro das grandes navegações assolava o planeta. Navegadores de todas as procedências, “aos auspícios de Suas Majestades”, se enfileiravam na grande odisséia dos descobrimentos marítimos, como Vicente Pinzón, que partindo de Castela, no comando de uma expedição, traz com ele Mário Henandez, uma espécie de aprendiz de marinheiro, com 20 anos. Ele estava na própria nau capitânia de Pinzón, sob recomendação de um primo distante, que tentava introduzir o rapaz em algum ofício proveitoso, como forma dele esquecer uma desilusão amorosa muito forte pela qual passara.

-- Ô rapaz, que estais aí a fazer, cabisbaixo, pensativo? Deixa as desgraças para trás, meu amigo. Amores entram e saem de nós como estas cristas de ondas quando se levantam e morrem.... e depois vêm umas borrascas, mas elas são levadas por outras ondas, e experimenta-se um intervalo de paz. Assim é a vida, meu filho. Vamos tocar pra frente a vida. Você está apenas começando a viver. Prepare-se para outras ondas maiores, pois não podemos tirar essas emoções da gente. – O comentário foi do capitão Perez, uma espécie de imediato de Pinzón. As palavras de Perez quebraram o silêncio do jovem galego, que se levantou imediatamente. Sob gesto do oficial, ele voltou a ficar sentado.

-- Meu capitão, quanto às desilusões eu as estou colocando nas rédeas da minha razão. Não se preocupe. Mas de qualquer maneira, obrigado pelas palavras que o senhor dirigiu a mim. Me sinto muito revigorado pela companhia de vocês. Mas existe uma coisa que me preocupa muito no momento. – comentou Mário.

-- O que é que te aflige, ó mancebo de Deus! Posso te ajudar? Vamos, desabafa. Vamos ver o que este velho e experiente capitão pode fazer por você. Confia em mim. Vamos, confessa. Eu sou todos ouvido.

-- Noite passada tive um pesadelo. Sonhei que o nosso comandante tinha se enfurecido com o senhor, por causa de mim.

-- Não seja tão ingênuo, rapaz. Minhas relações com o comandante Rodriguez são as mais profundas. Sou, inclusive, seu (dele) conselheiro nas decisões mais difíceis.

-- Verdade?

-- Sim, verdade! Ontem mesmo ele pediu-me que o substituísse no comando dessa nau, já que ele estava um pouco cansado. É só em mim que ele confia.

Mário começou a desconfiar da “pavulagem” que o velho marinheiro demonstrava, nas entrelinhas das afirmativas.

-- Não acredita, né? Pois vou te provar isso! Amanhã mesmo você receberá um posto. Eu o nomearei chefe de convés, e com a aprovação dele.

-- Puxa, meu capitão! Com todo respeito, acho tão difícil que isto aconteça. Só acredito vendo!

-- Pois verás! – insitiu o capitão – Tenho certeza que verás. Agora, o que deves fazer é deixar o passado de lado e descansar, pois a noite avança, e amanhã terás um dia cheio.


A noite avançou ainda mais. O jovem Mário voltou o contemplar o lugar. O imenso verde que começava a aparecer ao longe, se contrastava com as águas barrentas oiapoquinas, na Costa Palicúria. Estava tão absorto que não percebeu o perigo iminente que se aproximava, quando recobrou os sentidos. Estava entre os jacarés que o cercavam, disputando o corpo bem desenvolvido e branco do castelhano. Os répteis famintos só não o devoravam, porque o astuto pajé dos Tucuju, Itanhaê, ouvindo o grito e avisado por uns guerreiros, o salvou das bocas certeiras e vorazes dos selvagens.

Depois que Mário foi salvo, Itanhaê fitava o rapaz, bem surpreso. Mas a surpresa foi de ambos. O velho feiticeiro quebrou o gelo do silêncio, só que seu idioma não conseguia se fazer explícito. Foram muitas horas de aflição, até que finalmente o experiente Itanhaê soprou um som forte de seu turé. Nesse mesmo instante, choveu guerreiro de todo lado.

-- Esperem... esperem... que audácia é esta? Não quero fazer mal algum a ninguém. Não me façam mal. Ai! Não me batam! Socorro! Socorro!

Surdos aos gritos de alienígenas da Costa Palicúria, os gentios amarraram-no a um tronco e foram, floresta adentro, levando-o como prisioneiro. Os gritos do pobre e assustado castelhano vararam a escuridão, sufocados pelo barulho das águas e pelos gritos dos guerreiros. Afinal de conta, não será todo dia que se capturava um branco. O susto maior seria se fosse comprovado de que o jovem castelhano seria um dos homens do Norte, vaticinado nas profecias da tribo.

Novamente Jaci começou a descer, e as nuvens escuras iniciaram o ritual da chuva fina, juntamente com o desaparecimento de Coaracy. De longe, Jurupari, sob a forma de um caitetu, observava a cena. Mário Hernandez realmente mudou de posto: agora não é mais o lavador de convés, nem descascador de batatas. Ele é o prisioneiro dos Tucuju, e sua primeira noite de calvário estava a se cumprir.

O grito melodioso da mãe d’água deixava claro que ela estava a enfeitiçar mais um guerreiro, que já estava rumo ao seu reino no fundo do rio:



Como é grande a solidão!
Sob o chão de espumas densas
Canta o passarinho nas cascatas,
Tinge coração amor intenso
Das bravatas
Das bravatas

E chama guerreiro forte com emoção
Vem aqui, ó meu rapaz, ó meu amor
Consolar o coração,
Pois no peito sinto falta de um amor...

Como é grande a solidão!
Como é grande a solidão!

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