NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capitulo 02




Finalmente, após algumas luas, vem a cunhã ao mundo. Recebida pelo cacique Itaraê, a primeira filha passa a se chamar, por seu pai, Niranaê, por orientação do feiticeiro Itanhaê. Toda a nação tucuju paralisou seus afazeres por alguns instantes, na saudação ao novo ser, dádiva de Iratu. Todo contente, o jovem Itaraê empunhou o arco e a flecha; e com todas as suas forças, arremessou a flecha ao longe, cortando os céus. Em seguida, bradou o nome de Iratu nesses versos que se seguem:


Iratu, jovem guerreiro,
Valente de todos os valentes,
Varão maior das terras celestiais
Em meus braços está a tua dádiva...
Ela se chamará Niranaê,
Que na nossa fala significa
“Mãe da Grande Nação”

Ela se fará cunhã, e produzirá os varões mais valentes
Para alegria da nação tucuju
Os homens do Norte jamais tocarão sua face
De seus lábios jamais será produzido um nome vulgar...

Dádiva de Tupã, presente a Iratu, Niranaê será o inicio
De nossa resistência
Frente aos inimigos do Norte...


Mesmo instante, viu-se um enorme rugido no céu. Coracy desapareceu e a chuva veio copiosa. Todos os índios receberam a chuva da bênção. Mas não foi por muito tempo. O cacique percebeu que o feiticeiro itanhaê estava perturbado, como que recebendo uma mensagem dos espíritos da floresta. Após alguns instantes de transe, que ninguém ousou quebrar, o cacique perguntou, curioso, ao pajé:


-- Estavas a falar com quem?
-- Recebi aviso dos espíritos da floresta.

De inopino, Itanhaê silenciou. Em seguida puxou sua piteira de turé, tragou a fumaça do amotacuã, soltou-a em três longas baforadas. Depois olhou firmemente para Itaraê. Todo o corpo do velho feiticeiro brilhava, irradiando uma luz diferente. Após o envoltório da fumaça de seu cachimbo desaparecer, ele olha para Itaraê e vaticina:

-- Espíritos da floresta dizem que Iratu recebeu tua mensagem. Ele manda dizer que gostou das palavras, mas avisa que futuro da menina pertence a Ele, e não a ti. Estais a adivinhar um futuro para alguém que não te pertence. Estais a adivinhar sem ser pajé. Por isso, Iratu está triste.

-- Como assim? – perguntou, preocupado, Itaraê, ao “filósofo” da tribo.

-- Antes que tenhas algum plano para tua filha, Iratu tem os dele. Há muitas luas, antes que ela chegasse com vida à tribo feito cunha, Jurupari já estava de olho, mas é claro que menina Niranaê não pode ser de Jurupari.

-- mas ela não será de Jurupari. Eu nunca disse que ela pertenceria a Jurupari. Que idéia mais complicada a sua! – retalhou o cacique, frente às declarações do feiticeiro.

-- Menina Niranaê não será de Jurupari. Menina Niranaê não é totalmente sua. Menina Niranaê não será de homem algum. Ela é dádiva de Tupã para Iratu. Enquanto ela viver, a aldeia será envolvida por um clima de paz: haverá muita caça, e índios serão felizes.

-- Mas... e o destino de nossa nação? E o futuro de meus descendentes? Quem me substituirá? – perguntou, intrigado, Itaraê.

--Você está mais preocupado com você do que outra coisa. Deixa o destino nas mãos de Iratu. A felicidade e a paz da nação tucuju dependem muito da virgindade de Niranaê. Niranaê não é sua, ela é filha de Tupã, que deu de presente para Iratu. Por isso mesmo, é que não pode ser tocada por nenhum guerreiro. E castigo de Iratu para quem desobedece é forte e certeiro, principalmente para quem mexe com suas mulheres.

Itaraê ficou um pouco decepcionado e triste com as palavras do feiticeiro. Recolheu-se em sua rede, e ficou pitando a noite inteira. Itanubá resolveu não importunar o marido. De vez em quando ela levava um pouco de bebida aromatizada de epadur, para abrir um pouco a cabeça, e ajudar a atenuar as preocupações.

Muitas visões foram aparecendo na mente de Itaraê. Fomas disformes, rostos diferentes. Anhangá tentou perturbar seu sono, e ele foi interrompido, várias vezes, por imagens deformadas e variadas. Os pesadelos foram interrompidos, de repente, pelo choro da criança. Itanuba começou a cantar perto da menina, mas a pequena Niranaê chorava muito alto ainda. Itaraê fitou a face da bebê, que de repente calou-se, substituindo o choro por um leve sorriso. O velho guerreiro, acostumado com as durezas da vida,sorriu também como uma criança.

A emoção tomou conta do ambiente. Um acalanto foi logo saindo dos lábios de Itaraê, que começou a cantar canções de carinho:

Acutipuru empresta teu sono
A esta menina que não quer dormir.
Empresta teu sono para que
Esta menina possa dormir.

Já era madrugada, e Itaraê, após fazer a filha dormir (e isto era raro na vida dos índios, porque era tarefa da mãe fazer qualquer curumim ou cunha dormirem). Pediu a Itanubá que fosse descansar. A jovem índia queria um pouco de carinho, ou ficar perto de Niranaê, mas resolveu obedecer ao marido. Entrou, em seguida, para um cubículo onde passou uma lua inteira, mas teria que passar mais outra lua, longe de todos. É costume da mãe tucuju durante o período de gestação. Era uma maneira de purificação do corpo, que acabou de colocar no mundo uma vida. E este ritual era obedecido sem relutâncias.

O resto da noite teve a presença de Itaraê contemplando a filha dormindo. Agora Itaraê é outra pessoa, e a felicidade tomou conta de seu mundo. A musicalidade dos ruídos da floresta já estava a anunciar a presença de Coaracy. E o silêncio foi quebrado pelo feiticeiro Itanhaê, que pegou a menina nos braços do pai, para que, na manhã seguinte, fossem efetuadas as primeiras provas de iniciação, a fim de poder testificar a capacidade de sobrevivência.

Pela manhã, Itanhaê evocou os espíritos da floresta para que presenciassem as provas pelas quais a nova índia teria que se submeter, a fim de ser admitida entre os seus irmãos de tribo. A menina despertou, no seu grande dia, com a fria água do igarapé, que a cobriu toda, sobrando apenas a cabecinha para respirar. Itanhaê a segurou por longas horas. Ela começou a soltar gemidos, tremendo-se toda durante a sessão. O velho feiticeiro mergulhou-a três vezes, aspirou em suas narinas e soltou fumaça de sua piteira em todo o seu corpinho, vindas de ervas aromáticas e sagradas.

Uma cunhatã e uma cunhã começaram a se revezar para segurar a criança. Foram mais ou menos três horas, na contagem do homem branco. Seu corpinho, de frio, começou a ser queimado pelo calor do sol que castigava o rio Jarí.

-- Ela sobreviverá. Por isso mesmo, é digna de ficar com a gente. Que Iratu a abençoe, e que ela traga muita paz para nossa gente --- palavras do sábio da tribo.

Ao cair da noite, foi realizada a primeira festa do Turé para Niranaê, que perdurou por três dias e três noites. Por conta do cacique, foram servidos caxiri e beiju, e caça à vontade.

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