NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capitulo 01




Foi na quarta lua do ano das grandes colheitas, que Itaraê saiu do ventre de Arati, saudando a aldeia com choro aberrador, e assustando logo sua mãe. Não chovia nem fazia sol quente, pois Coaracy prometeu não importunar o pequeno curumim recém-chegado do mundo.

Itaraê foi crescendo com o leite de Arati, cunhatã vigorosa e guerreira, conhecida pelo volume alto dos seus seios, com os quais amamentou uma dúzia de curumins. Itagibá, seu pai, grande feiticeiro da nação ticuju, está feliz pelo menino. De acordo com o vaticínio dos espíritos da floresta, Itaraê será o grande varão da terra. Itaraê será o continuador da história do povo tucuju.

Dizem as profecias da nação, que os homens brancos do Norte estavam prestes a ameaçar o sossego dos tucuju. Sentindo o perigo, o grande Iratu enviou Itaraê, para conduzir os guerreiros rumo à vitória. Mas essa missão de Itaraê exigia um sacrifício maior: uma filha que nascesse através dele, seria inteiramente dedicada à divindade. O pacto foi selado e o destino já estava sendo traçado. A pequena nação, através de seus xamás, já começou a sentir o perigo iminente.

Chegou o dia da primeira prova que Itaraê precisava passar. O guerreiro mais forte, Itagibá, seu pai e chefe da nação, pegou o pequeno guerreiro e fê-lo flutuar nas frias águas do Jarí. Às primeira horas, o varão reagiu bem. A boiúna, de longe, estava na espreita. Itaraê foi assim, suportando todas as provas vitais com o decorrer do tempo, e por isso mesmo foi-lhe dado o título de Varão da Terra.

Destro na caça e na pesca, Itaraê começou a ficar robusto, vencendo os festivais e competições da mocidade. Assim, o menino virou guerreiro de verdade, selvagem astuto, e bem reverente aos espíritos das florestas,e aos costumes da grande nação tucuju. Não importunava a grande sucuri, descendente da cobra grande. Entre as inúmeras crenças dos tucuju, havia essa da grande boiúna: todo índio tucuju que ousasse molestar uma sucuri e impedir o seu curso, tem como pena a de ser apanhado pela cobra, sem resistência, como alimento. E também um dia, é destino de todo guerreiro que, ao ser chamado por Iratu, entregar-se à cobra para que seja devorado, e seu espírito guerreira seja liberto de seu cárcere privado que é o corpo, para ir de encontro às águas plácidas do Grande Igarapé, onde uma índia virgem e vistosa lhe virá ao encontro, para reinicio da vida num lugar onde a caça é mais abundante, e os igarapés mais piscosos.

Também toda índia que um dia fosse chamada por Iratu, ela se transformaria numa belíssima guerreira virgem, e cada uma seria recepcionista de cada guerreiro que chegasse ao céu de Iratu. Aliás, essa divindade guardava uma índia para cada guerreiro, como premio por causa da vida dura que ambos tiveram, nas selvas terrestres.

Grande guerreiro e corajoso na arte de vencer o inimigo, Itaraê é nomeado, após dezenas de festivais de lutas, o chefe da nação tucuju. Proclamado cacique titular, com plenos poderes para administrar todas as tribos tucuju, ele recebeu do pai, a esse momento cego e muito avançado na velhice, esta missão. Ele estava consciente da responsabilidade que acabava de assumir.

A preocupação maior era com as profecias de seus ancestrais, sobre a vinda de guerreiros do Norte, vestidos de indumentária diferente, botas de cano longo, portando paus que cospem fogo e vagas finas que brilhavam ao contato do sol. Segundo os feiticeiros das tribos tucuju, esse inimigo já não estava muito longe. Era necessária muita sabedoria e astúcia guerreira para espulsá-lo.

Após ter desposado Itanubá, uma jovem índia, Iraraê sentiu-se um índio mais completo. A caça e a pesca na região eram abundantes, e tinha para todos. O que Iratu proibia era o exagero. Segundo as leis das tribos, cada chefe de família só podia caçar um quadrúpede macho. As fêmeas eram proibidas, porque poderiam estar carregando filhotes no ventre.

Passaram-se muitas luas, depois do casamento de Itaraê. Satisfeito com Itanubá, ele fazia de tudo para não transbordar a sua preocupação com outras mulheres da tribo. Por instantes ele se fazia forte, mas logo se perdia nos seus pensamentos, preocupado com o destino de seu povo. As profecias dos mestres de tenda eram bem mais predominantes em seu pensamento.

– Itanubá preocupada – falou sua mulher, quebrando o silêncio.

– Por que Itanubá preocupada? – retalhou Itaraê, voltando os olhos à sua índia.

– Praga de Jurupari faz Itaraê triste. Isto preocupa Itanubá.

– Por que? – insistiu o guerreiro.

– Iratu visitou Itanubá em sonhos, e mandou recado de Tupã. Iratu aproveitou para revelar uns acontecimento que irão fazer Itaraê ficar mais preocupado. – revelou a índia.

Desta vez, o cacique ficou mais curioso e intrigado com a conversa da mulher.

-- O que te revelou ele?

– Revelou notícias destino nosso povo.

– Já sei. Itaraê vai receber aviso de espírito da floresta, do inimigo que está próximo, não é? Mas avisa logo para ele, se ele aparecer de novo nos teus sonhos, que Itaraê está cansado de esperar luta. – desabafou o guerreiro.

– Itaraê lutar não é, por enquanto, desejo do Grande chefe – advertiu Itanubá, deixando o guerreiro mais aflito ainda.

– Qual é então o desejo do Grande Chefe? Fala logo, mulher. Você está me deixando preocupado!

– Desejo do Grande Chefe é que Itaraê tenha uma cunhã de meu ventre. E o desejo já está sendo cumprido.

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