NIRANAÊ, SAGA TUCUJU

NIRANAÊ, SAGA TUCUJU
De Edgar Rodrigues

1.5.09

Capitulo 20

Niranaê se acordou sentindo umas dores na altura do estômago. Há sete luas atrás, a velha guerreira já havia se queixado dessas mesmas dores, que eram acompanhadas de um calor intenso e uma quentura por todo o corpo cansado. Neste dia, porém, a dor era maior. Mário começou a notar a gravidade da situação quando percebeu, ao acordar, que Niranae não havia colocado lenha no fogo, nem esquentado a água, com o fazia costumeiramente, para fazer beiju. Chegou perto de seu leito, e perguntou á índia:

-- Voce está sentindo alguma coisa, amor?

A índia tucuju, para não preocupar o marido, tentou consertar a expressão de dor com um leve sorriso no rosto.

-- Não, querido. Apenas uma dorzinha na barriga, mas passa logo. Não se preocupe. Já vou me levantar para fazer o beiju.

Mário acreditou em parte na mulher. Havia um pouco de desconfiança. Em todos os anos de convivência a índia sempre se levantara cedo, ralava a mandioca, secava a massa no tipiti, recolhia o tucupi e fazia os beijus. Em seguida, fervia a água para preparar o chá de capim santo. Niranae conseguiu se levantar e caminhou alguns passos em direção ao fogão de lenha. Mas antes de chegar, sentiu uma vertigem e caiu, desmaiada. Imediatamente, como uma flecha, Mário a segurou e voltou a colocá-la no leito. De repente Nirana~e começou a gritar de dores fortes.

-- O mulher, filha de Deus, que está acontecendo contigo, meu amor? Por que mentes para mim? Sabia que alguma coisa estava te acontecendo, mas tu és uma pessoa teimosa, sempre teimosa, não é? Não custava nada me dizer...

Entre palavras e balbucios, a velha índia tentou se explicar, ao que Mário interrompeu:

-- Por favor, Nira, fale devagar. Ou melhor, fique calada. Sei que essas dores não são de agora. Espera que vou chamar Setiribá para ver o que é que está acontecendo contigo.

Mário fez menção de se afastar para chamar Setiribá, mas eis que a velha índia aparece perguntando:

-- Ela já está sentindo as dores novamente?
-- Quem lhe falou que ela estava doente? – perguntou, assustado, Mário.
-- Voce já deveria estar acostumado com isso, Mário. Nós temos o dever de estar por dentro de tudo o que acontece com nosso povo. Setirapé, o espírito da floresta, avisou-me que Iratu precisa de Niranae. A visagem do bem me avisou também que nada pode ser feito para atrasar a viagem de Nira. $la está encerrando sua tarefa aqui na terra, e como eleita de Iratu, Nira tem que cumprir novas tarefas lá no céu. Grande Guerreiro Celestial já a espera. Portanto, amigo Mário, você tem que se curvar perante os pássaros brancos que já chegam, e aceitar a partida de sua eleita. Voce tem de aceitar, porque antes de nascer, Niranae foi a eleita de Iratu. Iratu perdoou a índia e você, mas Niranae precisa, agora, retornar para as florestas do céu.

-- Mas por que logo tão cedo? – falou, inconsolável, Mário. A velha Setiribá imediatamente se dirigiu ao velho castelhano:

-- Mário, você não tem o direito nem mesmo de reclamara nada para Iratu, porque você roubou e profanou a eleita dele. Pelo contrário, ele foi benevolente com você. Voce não se lembra que Itanhae havia lhe dito ser Niranae a escolhida de Iratu? Voce colocou óleo de homem nas entranhas da índia, e isso provocou uma grande reviravolta nas florestas celestiais. Itanhae, por ter se afeiçoado a você, conseguiu do Grande Guerreiro o perdão de sua falta. Grande Iratu consentiu que você tomasse conta da índia e a ajudasse a construir a grande nação, mas uma condição apenas ele impôs: que ao cumprir os deveres de mãe, Niranae teria que retornar a Iratu. Niranae é sua mulher, Mário, mas é a Eleita de Iratu. Por isso mesmo, e com o consentimento de Tupã ela deve partir. Voce nada pode fazer... absolutamente nada...

De repente, uma voz diferente passou a se ouvir dos labios de Niranae. A índia pronunciava palavras que eram entendidas por Mário, mas a mensagem não era dela. Como que possuída por alguma entidade, Nira falou olhando profundamente nos olhos de Mário:

--Eu sou Iratu... Aquele que vive em tudo e em todos! Pela primeira vez eu estou me dirigindo a você, Mário, através desta criatura. Por muito tempo fui testemunha dos fatos que ocorreram com você. Meu povo precisava de sangue novo para que a nação tucuju tivesse prosseguimento na sua existência. Voce apareceu em um dos navios do homem branco, cercado de gente diferente. A sua pele branca e alva... pensei comigo: poderia melhorar a coloração da pele de meu povo. O velho Itanhae, meu servo fiel, acatando ao meu aviso, lhe salvou a vida no momento em que ias ser engolido pelos grandes jacarés. Perdoei-te no momento em que bolinaste com a minha escolhida, pois estavas destinado a pertencer a outra índia. Ajudei-te a mudar o rumo de tua historia e a constituir família através do útero de Niranae, ma com a condição de que ela voltaria um dia para mim. Hoje está sendo cumprido o ciclo de Nira, e por isso mesmo deves aceitar com resignação e obediência. Se queres pertencer ao meu povo, tu deves permitir que Niranae parta, sem rancor algum. Entre meu povo a morte não é encarada como causa, mas como resultado de um trabalho. Com o chamado de Niranae, o trabalho, para ela, continua. Deixarei que ela se despeça de você, porque você é também meu filho amado, que eu adotei e será meu, para sempre. Mas você tem que dar força para ela cumprir este ciclo. Voce não pode impedir o curso do tempo. Lembre-se que você poderia ter morrido na pororoca.
Adeus, meu filho.... eu confio muito em você, e estarei sempre contigo na condução do meu povo para dias melhores, e para que resista perante o avanço dos homens do Norte, que modificarão, no futuro, esta Nação.

Neste momento uma luminosidade tomou conta da taba em que estava Niranae. No rosto da índia resplandesceu uma luz que se alojou á altura de sua fronte. De repente ela começou a falar em voz conhecida, da índia de Mário.

-- Mário, meu amor...

E Mário ficou todo deslumbrado pelas palavras carinhosas que vieram de sua tão amada e inesquecível Nira:

-- Estou aqui, meu coração – respondeu o castelhano, no mesmo instante em que segurou a mão de sua amada.

-- Sinto que vou partir, meu mor, mas não quero que você fique triste. Me prometa uma coisa: meu pai e eu estamos delegando a você uma missão, para que continue a liderar a nossa gente. Nesse momento já visualizo o meu pássaro branco. Ele já está a estender uma das asas para mim. Já estou sentindo um frio confortador, e as dores desapareceram. Sinto uma sensação estranha e ao mesmo tempo gostosa. Sinto que estou deitada em colchões de nuvens, e nada me dói, a não ser a preocupação de deixar você sozinho.

Mário começou a chorar. Ia pedir que sua Nira ficasse, mas se lembrou das palavras de Iratu. Assim o castelhadno começou a confortar a velha índia, formosa, que com sua ajuda conseguiu construir uma família e continuar uma nação, que hoje faz parte do futuro da vila.

-- Adeus, meu amor. Sinto que as forças me abandonam agora, mas uma sensação maravilhosa de paz está tomando conta de mim. Eu vou te amara para sempre, meu marido, meu bem, minha dádiva de Iratu. Eu vou sempre me lembrar dos momentos maravilhosos que passamos juntos. Eu vou te esperar lá nas pradarias celestiais. Não se preocupe que jamais vou te abandonar, ta? Te amo muito, e te amarei para sempre. Obrigado por seres único e somente meu. Eu sei que muitas índias, naquele momento em que chegastes ás nossas terras, estavam querendo te ter como marido, mas tu escolheste só a mim, e por isso mesmo te sou grato. Vou te amar para sempre. Adeus, meu bem.....

Eram dez horas da manhã, na contagem do homem branco. O coração de Niranae parou de bater aos 59 anos. Depois de tantas luas de dores, ela agora descansa, com u sorriso cristalino nos lábio, e uma sensação de paz e repouso. O seu amado agora contempla o rosto de sua devotada, junto com Amália, Aracém, Hernan e Jacareí, que a essas alturas estava ao redor do corpo da índia, já sem vida.

A noite chegou. Toda a nação estava triste. Os tucuju enterraram o corpo de Nira no centro da praça, por recomendação de Itanhae, por se tratar, agora de uma divindade de Iratu. Foram, ao todo, dois ciclos de luas cheias (quase cinqüenta dias, na contagem do homem branco) para que o ritual de transição se cumprisse. Assim, após os festejos funéreos, a velha Setiribá anunciou a ida definitiva de Nira aos céus de Iratu. Neste dia, toda família mandou produzir muitas iguarias, e o nome de Niranae passou para a historia tucuju como o nome de um espírito bom da floresta.

Para Mário, todos os dias melhores de sua vida se foram com a partida de Niranae, mas se sentiu confortado ao redor de tantos filhos e netos.... assim como a assistência permanente dos velhos e velhas companheiras, além de toda a população tucuju. Mas a vida tem que continuar, e a rotina passou a marcar presença, sempre com a lembrança de seu amor em todos os momentos e instantes, como o anjo branco agora a proteger os seus irmãos índios, que um dia tiveram o prazer de conhecer.

Havia o consolo de que em breve, muito breve, estariam novamente reunidos.... desta vez nas florestas celestiais sob o abrigo perpétuo de Iratu.

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